O efeito de anabolizantes e os riscos reais para a saúde

Por Thalita Souza

Foi Oscar Wilde, um escritor irlandês reconhecido por sua ríspida franqueza, quem disse, em torno de 1870, que “só os tolos não julgam pela aparência”.  Ser considerado bonito é um desejo tão antigo quanto a própria humanidade, e a busca pela perfeição física acompanha as gerações sem respeitar limites geográficos.  Desde o hábito de amarrar os pés na infância, praticado por chinesas até 1950, ou o uso de espartilhos por volta do século XVI, praticado pelas mulheres inglesas, a sociedade parece acostumada a encarar modificações e acessórios perigosos no ritual das aparências.  Talvez por isso seja comum ignorar os riscos de medicamentos que são conhecidamente prejudiciais para a saúde em busca dos benefícios passageiros que eles oferecem. Esses remédios, conhecidos como anabolizantes, servem em maior parte como artifício de homens, que, exatamente como as mulheres,  se rendem à indústria farmacêutica e de cosméticos para se sentirem belos e atraentes.

Pés de uma chinesa de 84 anos após modificações com ataduras na infância

Não é portanto uma questão de sexo. Segundo pesquisa realizada pela 2B Brasil Research, com 400 homens, 82% deles, entre 25 e 64 anos, acha fundamental cuidar da aparência e gastam cerca de 15% do salário com produtos para essa finalidade.

O remédio  mágico

Enquanto os padrões de beleza exigem mulheres magras e esguias como as supermodelos famosas, o desejo de 85% dos homens brasileiros é ser forte. A vontade é antiga e pode ter origem nos elementos de masculinidade associdados aos músculos. Um bom exemplo é o desenho Popeye, famoso desde a década de 30 até os anos 90, e que sempre associou o aumento da força do protagonista com a possibilidade de enfrentar os inimigos e salvar a enamorada mocinha, criando na mente de jovens a sensação de que a massa muscular pode ser um símbolo de sucesso e admiração.

Os anabolizantes funcionam à base de hormônio masculino, testosterona, com as características anabólicas e androgênicas que geram a hipertrofia muscular em um menor espaço de tempo, dando essa ilusão “milagrosa” de um crescimento rápido do corpo, exatamente como o espinafre fazia com o personagem principal da animação.

O grande problema dessa ilusão é justamente por ter em sua origem um efeito enganador. O aumento de “tamanho” na verdade não é devido ao aumento de músculos saudáveis, e sim do acúmulo de água no corpo. Esse “inchaço” não tem qualquer relação com um aumento da força da pessoa e, além disso, piora significativamente a saúde. Espinhas, risco de impotência e distração, alterações de personalidade – como aumento de agressividade e ansiedade – estão entre os comprovados efeitos colaterais.

Além disso, o uso desses medicamentos, na maioria das vezes, leva à dependência. Depois de um período, de geralmente oito a dez semanas, a pessoa atinge seu auge muscular, mas o organismo não está preparado para produzir aquela quantidade de hormônios, e o usuário aos poucos começa a perder massa. O que o leva a começar um novo ciclo.

Um dos entrevistados, que não quis se identificar, afirma:  “Geralmente quem usa muito, e conhece, fica um período sem usar para o organismo dar uma estabelecida. Aí, depois de um tempo, usa de novo.” O que ameniza, mas não acaba com os efeitos colaterais.

O problema é na cabeça

A grande maioria de jovens que utiliza anabolizante não tem qualquer problema físico e o que os leva a utilizar esse recurso muitas vezes está relacionado a problemas com a auto-estima, como explica a psicóloga Dária Rodrigues. “Às vezes, existem imagens distorcidas de si mesmos e eles buscam recursos externos para se adequar aos padrões. Depositam no uso de anabolizantes não só a busca pelo corpo perfeito, mas se enquadrar no perfil. Perdem o limite porque o foco sai das relações interpessoais e o bem-estar individual, buscando reinserção através de um método artificial”.

Segundo o preparador físico Ricardo Aguiar, “as pessoas que malham conseguiriam efeitos similares e muito mais saudáveis e duradouros simplesmente fazendo atividades regularmente. Nenhum dos jovens que usa anabolizante costuma apresentar problemas para ganhar massa, e isso é mais uma atitude preguiçosa, de quem quer resultados na hora, mas isso é impossível”. Ricardo completa ainda afirmando que o exercício genuínio aumenta a porcentagem de massa magra no corpo, aquela que faz bem para a saúde, diminui a gordura do organismo e ainda aumenta a “força” de verdade, não falsamente como com os remédios. “Você se sente ficando mais forte e percebe uma melhora na coordenação motora e na habilidade de manusear peso no cotidiano”, finaliza Aguiar.

Desenho animado de 1933, Marinheiro Popeye

Para o preparador, qualquer pessoa pode se tornar um “Popeye” de verdade, mas, para isso, precisa de características como perseverança e disciplina; “valores muito mais reais do que o remédio mágico”.

O importante, de acordo com a professora de Educação Física, Marina Sant’Ana é “não se preocupar primeiramente com a forma física e sim com a saúde. É possível conseguir um corpo bonito, mas, para isso, deve se praticar atividades prazerosas, que irão influenciar em suas vidas de maneira positiva, que possam dar satisfação, onde possam estar em contato com outras pessoas e acima de tudo trarão saúde”.

About these ads

Comentários desativados

Arquivado em Esporte

Os comentários estão desativados.