Folia de Reis

        

         - Ó de casa, ó de casa / Alegra esse moradô / Que o glorioso santo Reis / Na sua porta  chegô.
         – Sôr dono da casa / Vem abri as portaria / Recebê santo Reis / Com sua nobre folia.
         – Sôr dono da casa / Alegra o seu coração / Arreceba santo Reis / Com todos os seus folião.
                                                                                             

Clarice Delgado
                                                                                                      30 de abril de 2008

Durante 12 dias, a partir do Natal até o dia 6 de janeiro, o Alferes da Folia, chefe dos foliões de reis, seguido dos palhaços do Reisado e de seus instrumentos barulhentos, pode bater à sua porta a qualquer momento.

Vai despertar quem estiver dormindo, pedir permissão para entrar, tomar café, oferecer uma bandeira colorida enfeitada com fitas e santinhos e recolher dinheiro para a Folia de Reis. Enquanto o Alferes entra em casa, do lado de fora, os palhaços, vestidos a caráter e cobertos por máscaras, representando os soldados do rei Herodes, de Jerusalém, dançam ao som do violão, do pandeiro e do cavaquinho, recitando versos.

A festa…

De origem portuguesa, a Folia de Reis é uma manifestação da religiosidade popular que se caracteriza como mistura de danças, encenações, cantorias, violas e declamações de trovas. Um tempo de festa que ocorre no final e início de cada ano, tendo como ponto culminante o Dia dos Santos Reis, 6 de janeiro, ainda dia Santo de Guarda para todos que mantêm a tradição da Folia.

Durante a caminhada e cantoria dos foliões, um festeiro carrega a bandeira dos Santos Reis (ou da representação do presépio). A figura do Divino Espírito Santo (foto) também é ali representada pela pomba. Tudo é muito colorido e alegre, pois esta é uma marca constante da peregrinação.

A folia comemora o nascimento de Cristo. Seu enredo lembra a viagem que os três reis magos Baltazar, Belchior e Gaspar, fizeram a Belém para encontrar o Menino Jesus. Os dançarinos saem pelas ruas das cidades, principalmente nas periferias e também no meio rural, anunciando o nascimento de Jesus com graça e diversão, parando de casa em casa para apresentar seu número de canto e pedir uma oferenda.

A história…

Quando o Menino Jesus nasceu, em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, perguntando: “onde está o recém-nascido rei dos Judeus? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2, 1-2).

Os três reis magos, Gaspar, Belchior e Baltazar, fizeram uma peregrinação, uma longa viagem, guiados por uma estrela. Chegando em Belém da Judéia, numa manjedoura, lá encontraram José, Maria e o Menino Jesus. Eles o adoraram e ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra.

Desde então a prática da caminhada dos três Reis Santos perpetua até os dias de hoje. O grupo de foliões faz as suas à procura do presépio, levando as figuras de José, Maria e Jesus, estampadas numa bandeira de pano. Os foliões fazem suas louvações com músicas, rezas e danças, entoando ladainhas com muita demonstração de fé. Cada grupo ao seu modo, mas com a mesma devoção: venerar, adorar o Salvador recém-nascido e anunciar o seu nascimento a todos os homens e mulheres de fé.

Os foliões…

Os foliões abrem alas com uma bandeira, que é abençoada e protege das más influências. Os grupos festivos de pessoas saem cantando ao som de violão, sanfona, cavaquinho, pandeiro, reco-reco, pistão, chocalho, triângulo, tantãs e outros instrumentos, exaltando o Deus Menino e percorrendo ruas, indo de porta em porta em busca de oferendas que podem variar de um prato de comida a uma xícara de café. Por isso, o Dia de Reis é considerado o dia da gratidão. 

Os personagens…

Os personagens que compõem a folia somam de 12 a 20 pessoas, todas trajando roupas bastante coloridas, sendo elas o mestre e contra-mestre, donos de conhecimentos sobre a manifestação e líderes dos foliões; além do palhaço, da Catirina (palhaço estilizado de mulher), dos foliões e dos três reis magos. O palhaço, usando vestimentas coloridas, deve proteger o Menino Jesus, confundindo os soldados de Herodes, sendo o seu jeito alegre e descontraído motivo para distração e divertimento dos assistentes; os foliões, geralmente homens simples e de origem rural, são os participantes da festa, dando exemplo grandioso através de sua cantoria de fé; Por sua vez, os três reis magos fazem uma viagem de esperança, certos de que ela os levará ao encontro de sua estrela.

Em Juiz de Fora…

Na cidade a festa é centenária. “Vem de pai para filho, de avô para neto”, explica André Luís Brasilino (foto), presidente da Associação de Folia de Reis e Charolas de Juiz de Fora. De acordo com André, existem atualmente cadastrados à Associação uns 15 grupos de Folia de Reis. Há oito anos que esses grupos se concentram no Parque Halfeld (foto), geralmente no dia 5 de janeiro, e é uma grande festa. Entre os participantes, estão o Folia de Reis Resposta do Oriente, o Alto do Reino e a Viagem de Maria Santíssima.

Durante o ano, os grupos se reúnem uma vez por mês no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, (CCBM). “Discutimos formas de melhorar os grupos, avaliamos o que foi bom e o que foi ruim do ano anterior”, relata André. Somente a partir de agosto é que começam as definições das toadas (músicas), quem será palhaço, os músicos, os ensaios. “Reunimos os foliões, cantamos, preparamos as vestimentas”, acrescenta.

Cada grupo também é responsável pela criação e produção da bandeira. Esta representa o presente que o folião oferece às casas. André explica que, “quando Cristo nasceu, levaram presentes para ele. A bandeira é o nosso presente para aqueles que nos recebem. Nela estão os votos de paz, alegria, prosperidade”.

Mas como é essa recepção? Segundo Brasilino, na maior parte das vezes, os foliões são bem recebidos. “O Brasil tem uma pluralidade religiosa muito grande. Temos que respeitar a escolha de cada um”, avalia.

Mas ainda é preciso apoiar mais a cultura popular para se manter a identidade cultural do povo brasileiro. A Folia de Reis é uma representação da população. Para André,  ela pode ser levada para o lado cultural ou religioso. O importante é participar, escutar um canto. E complementa que  “é muito difícil a pessoa parar e não se apaixonar pela Folia de Reis”.

E para quem deseja ser um folião de reis é só ir até uma reunião dos grupos no Centro Cultural Espaço Mascarenhas (Avenida Getúlio Vargas, 200 Centro (32) 3690-7052) e fazer parte de um. Começará primeiro como músico, ajudando nas toadas. “Para ser palhaço é preciso ter malícia, pois é ele quem dança, quem bate nas portas pedindo alimento ou estadia. É ele quem faz o verso de agradecimento ao dono da casa. Precisa de experiência”, ressalta André (assofolicha@yahoo.com.br 3217-8551).

Cultura popular: será que sobrevive ao mundo tecnológico?

À frente do grupo de Contadores de Histórias do Instituto Grambery, Laura Delgado (foto), professora e pesquisadora, revela que a cultura popular permanece viva porque ela resgata os sentimentos e os cultos antigos, como rezar, por exemplo.“As manifestações populares são praticadas, pois apresentam algo essencial. Vindas do povo e de pessoas eruditas, elas falam do lado bom e do ruim do ser humano, resgatando-se a possibilidade de se conversar sobre isso”, explica Laura. 

Dia de Reis, dia de encontrar os amigos…

Há 12 anos, José Eduardo Arcuri, ator, e Cristiano Rodrigues, professor, e(foto) recebem os amigos em casa todo ano no dia 6 de janeiro, Dia de Reis. O encontro nasceu a partir de uma história que Cristiano leu em um livro, onde um grupo de amigos que, por conta de suas atividades não conseguiam se ver sempre, resolverem estipular uma data por ano para se encontrarem. De acordo com Cristiano, ela acontece no dia 6 porque é quando todos voltam das comemorações de final de ano com as famílias. E, assim como na Folia de Reis, o encontro é religioso. “Todo ano tem. É só aparecer. Além disso, também oferecemos algum prato para os nossos convidados resgatando a tradição da cultura que é a de ofertar”, finaliza.

7 Respostas para “Folia de Reis

  1. Iluska Coutinho

    Bela matéria. Problemas em alguns links, que não abrem. Cuidado apenas com a adjetivação e com a falta de precisão, como na incerteza no número de grupos cadastrados na associação de JF (15 não é um número tão grande que impossibilite a checagem).

  2. Janaina Giacomini

    Bom dia!
    Estou encantada com o conteúdo do site. Sou professora em um projeto sócio educativo e neste ano de 2008 no segundo semestre resolvi trabalhar em projeto pedagógico com minhas crianças e adolescentes sobre o folclore no Estado de São Paulo, já que tão pouco conhecemos sobre o mesmo (ai me pergunto será que ele está desaparendo? estamos perdendo nossas caracteristicas? e não em vão é na cidade mais tecnológica do pais que isso acontece.) um dos pontos de pesquisa desse projeto era sobre Folia de Reis, procurando material para lecionar encontrei o referido site que digo de passagem é maravilho e me auxilio muito em material educativo para ser transmitido aos nossos futuros cidadãos. Parabéns pelo maravilhoso trabalho.

  3. Boa tarde amigos
    Sou um antigo elemento de uma “Charola” portuguesa que sómente existem na minha região que é no sul de Portugal.
    Ocasionalmente encontrei o vosso site e fiquei encantado com o seu conteudo, verificando que as vossas Charolas, têm o mesmo sentido que estas, nós também transportamos o estandarte e um presépio em miniatura que está associado a uma caixa para as esmolas. As nossas Charolas têm entre 20 a 30 elementos que do Ano Novo ao Dia de Reis, andavam de casa em casa e que á porta perguntavam se podiam entrar e se era para cantar ou rezar. Agora os grupos actuam mais em lugares publicos, nos vários Encontros ou Festivais que um pouco por todo o lado.
    No meu municipio que é o da cidade de Faro, há mais de 30 anos consecutivos que se organiza o Festival de Charolas o qual este ano decorreu no teatro municipal que com cerca de 900 lugares foi pequeno para acolher todos os que quiseram assistir.
    Parabens pelo site e pela magnifica descrição dessa cultura popular que de outra forma não teria oportunidade de conhecer.
    JJ Rodrigues

  4. david

    como fasso para registrar quando for lançar uma folia de reis eu gostaria de saber

  5. George

    eu sou folião e gosto muito da folia, e vou montar uma na minha cidade,nova lima

  6. ORCEMAR DIAS

    GOSTO MUITO DE FOLIA DE REIS, PORQUE MINHA CIDADE NATAL TINHA SÃO LUIZ DE MONTES BELOS GO, E QUERO MUITO RESGATAR ESSA TRADIÇÃO, AQUI NA MINHA CIDADE BETIM MG QUEM PUDER MIM AJUDAR FICO AGRADECIDO TEL 86461100

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