Belas Artes completa 75 anos e perde edifício da Estação Ferroviária

Por Ana Paula Nascimento

Aula de pintura na sala do prédio da antiga Estação Ferroviária

Aula de pintura na sala do prédio da antiga Estação Ferroviária

A Associação de Belas Artes Antônio Parreiras (ABAAP) completa 75 anos neste mês. O núcleo juizforano deu origem à Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras (SBAAP) que abrigou e deu visibilidade à uma nova geração de artistas. Esses artistas transformaram as artes plásticas da cidade, conforme relata Lucas Marques do Amaral, em seu livro “A Parreiras e seus artistas”.

Os principais fundadores da ABAAP foram Carlos Gonçalves e Américo Rodrigues. Desde o surgimento, a entidade visa reunir artistas, promover a troca de experiências e organizar exposições. Nomes como Ângelo Bigi, Aníbal Mattos, Armando de Lima César Turatti e outros mais ingressaram na Sociedade na década de 1930.

Mesmo depois de passar por três espaços da cidade, a Associação resiste ao tempo e continua congregando e revelando artistas. A primeira sede foi na Rua Halfeld. Depois, funcionou na Avenida Getúlio Vargas, esquina com a Rio Branco. O local que abrigou a sede, por conseguinte, foi a Galeria Carmelo Sirimarco.

Hoje, o núcleo funciona no edifício da antiga Estação Ferroviária da Central do Brasil. Lá, são oferecidos cursos de pintura, escultura, desenho e técnica mista. Além disso, a ABAAP promove seis concursos durante o ano, os Salões. Assim, artistas, alunos e amadores de Juiz de Fora e de outros estados expõem suas obras e concorrem entre si. O 24º Salão Primaveril premiou, no último dia 18, 21 artistas com medalhas e menções honrosas.

Irene Barros também aprende pintura com Myrthes Müller

Irene Barros também aprende pintura com Myrthes Müller (em pé)

Irene Barros, primeira presidente mulher da Associação, afirma que a entidade sobrevive dos recursos financeiros obtidos pelas aulas pagas dos alunos matriculados nos cursos e das contribuições dos sócios voluntários. A ABAAP não recebe verba de nenhum órgão. A mensalidade é de R$ 65, as aulas acontecem uma vez por semana, durante três horas, pela manhã, à tarde ou à noite.

A presidente revela que a situação atual do núcleo é preocupante, uma vez que não há recursos para realizar a comemoração dos 75 anos. Segundo Irene, a Prefeitura, que cedeu o prédio da antiga estação para a atual sede, pediu a devolução do espaço. Com isso, a associação terá que se transferir para outro lugar. “Não sabemos para onde vamos. Temos um acervo de mais de 300 obras, oito salas de aula e até o final do ano, temos que sair. Se não houver um local adequado, a escola vai fechar”.

Irene lembra que a Associação de Belas Artes de Juiz de Fora é a segunda mais antiga do país ficando atrás apenas do Rio de Janeiro. Para ela, a possível desativação da escola, será um grande desperdício para a cidade. (Ouça)

Heloysa Ramos frequenta aulas de pintura na Associação há cinco anos e descobriu seu talento com a ajuda da professora Myrthes Müller. A aluna conta como se sente motivada e feliz. “É um lugar maravilhoso onde fiz amizades, aprendi muitas coisas. Estar aqui preencheu minha vida. É um lugar muito prazeroso”. Heloysa ganhou uma menção honrosa no Salão Primaveril com a obra “Flores”.

Myrthes Müller está há 26 anos na associação e afirma que a liberdade que procura dar para os alunos e alunas gera uma troca de conhecimento e uma boa amizade, pois cada estudante escolhe temas de sua preferência. De acordo com a professora, “a Sociedade é como se fosse a minha casa, onde eu passo a maior parte do meu tempo”.

Medalha de Ouro no Salão Primaveril - Nadia Salvarani - Flores II - OST 45x45

Medalha de Ouro no Salão Primaveril - Nadia Salvarani - Flores II - OST 45x45

Os Salões possuem temas que variam ao longo do ano. O primeiro é “Natureza Morta” que se inicia em março. Em seguida, vem o mais antigo, o “Salão Oficial” (59 anos) que ocorre em maio e compõe as comemorações do aniversário da cidade. No mês de julho, ocorre o “Salão Feminino”, seguido do “Contemporâneo”, em agosto, e do já citado “Primaveril” em setembro. Para fechar o ano, o “Salão da Marinha” acontece em dezembro. Ele fruto da parceria com o 1º Distrito Naval do Rio de Janeiro que concede a premiação e participa do evento. Nos intervalos destes concursos, há mostras das obras dos alunos que são renovadas a cada 20 dias.

Julio César faz questão de elogiar seu professor Raniel Vehuel

Julio César faz questão de elogiar seu professor Raniel Vehuel (em pé)

O professor de escultura Raniel Vehuel, artista autodidata, considera a Associação como uma irmandade na qual passaram grandes nomes. “Um lugar de encontro, onde trocamos ideias e temos contato com outros artistas”. Vehuel descreve a arte e o processo de aprendizagem. “A arte é um sacerdócio. Ocorre de dentro para fora e de fora para dentro. Ou você aprende ou já tem a capacidade, o dom”. Segundo o professor é possível adquirir habilidade com as aulas. “Tenho uma aluna que dizia saber só modelar kibe e, atualmente, já ganhou várias medalhas de ouro com suas esculturas nos salões”.

Nadia Salvarani - Copos de Leite IV - Hours Concours - Faiança

Nadia Salvarani - Copos de Leite IV - Hours Concours - Faiança

O carioca aposentado, Julio César Costa, é aluno há três meses e já mostra aptidão. “Sempre tive vontade de fazer aula de escultura, sempre gostei de arte e hoje me sinto muito bem”.

A Associação de Belas Artes também oferece curso preparatório para a prova de Habilidade Especifica para os candidatos ao vestibular de Artes ou Arquitetura da UFJF. O núcleo fica na Praça Dr. João Penido (Praça da Estação) número 5 e está aberto a visitação de segunda a sexta-feira, de 8h às 11h e de 13h às 17h30. Outras informações pelo telefone 3211-7295.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Belas Artes completa 75 anos e perde edifício da Estação Ferroviária

  1. marco julien

    Parabéns, temos que reconhecer o espirito artístico, que vem colaborando com a cultura brasileira. Fico feliz, pelo empenho, brilho e capacidade da sensibilidade que requer de uma artista, da qual venceu todasas barreiras como mãe e agora como uma profissional plástica. As bençãos de DEUS em sua vida são meus votos
    JULIEN

  2. Uilmara

    É lamentável que a ARTE no Brasil ainda seja tratada com tanto desapreço. Que a Prefeitura de JF precise ocupar o prédio cedido à ABAAP para outros fins, isso não se discute, mas que se pensasse num outro local para instalar a ABAAP e não, simplesmente, “desalojá-la”. Artistas renomados fundaram-na e passaram pela ABAAP e não é justo que a História da Arte em Juiz de Fora fique restrita a livros e sites e que as portas para os atuais e novos artistas sejam fechadas desta maneira. Acho que este é o momento de algum(s) membro(s) influente(s) da sociedade juizforana intervir em prol da ABAAP, junto à PJF, pois quem está perdendo não são só os artistas, mas os cidadãos juizforanos, que serão privados de mais um espaço de cultura e lazer. BOA SORTE!

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