Educação ameaçada

Debate sobre drogas e violência nas escolas da cidade revela a delicada situação que envolve estudantes, educadores e comunidade

por Edson Munck Jr. e Thanius Sarchis

No ano passado, a divulgação, pela imprensa, de casos de violência nas escolas juizforanas chamou a atenção da opinião pública. Professores e demais educadores queixavam-se das condições de seu trabalho, uma vez que estava em jogo a própria integridade física desses profissionais. Cenas de agressões, ameaças, intimidação e rebeldia por parte de estudantes contra os docentes tornaram-se conhecidas da população.

De meados de 2008 até hoje, pode-se dizer que a situação mudou pouco. Certamente, em meio às dificuldades encontradas pelas escolas em lidar com a violência, a questão foi mais debatida e houve, assim, a tentativa de juntar esforços, buscando reverter o quadro.

A Audiência Pública, realizada no dia 23 de setembro, sinalizou que esse caminho de debate em conjunto com diversos setores da sociedade tem sido a alternativa mais adequada para tentar solucionar, ou pelo menos atenuar, o complexo problema da violência e das drogas nas escolas em Juiz de Fora.

Para Betão, os atos de violência na escola têm estreita ligação com as drogas

Para Betão, os atos de violência na escola têm estreita ligação com as drogas

Resultado de uma proposição comum dos vereadores Roberto Cupolillo (Betão – PT), Júlio Gasparette (PMDB) e da vereadora Ana das Graças Cortes Rossignoli (Ana do Padre Frederico – PDT), a 2ª Audiência do 9º Período reuniu, na Câmara Municipal, estudantes e profissionais de diversas escolas, representantes da Polícia Militar de Minas Gerais, da Superintendência de Ensino e da Secretaria de Educação da cidade.

O objetivo da Audiência foi discutir a importância da prevenção das drogas lícitas e ilícitas e, também, sobre a violência nas escolas públicas e privadas. Na abertura, Betão esclareceu que a onda de violência publicada nos jornais da cidade foi o principal fator que suscitou a intenção do debate na Câmara. “Ao que parece, os atos de violência têm estreita ligação com as drogas. Não se trata de um problema exclusivo da rede pública. Os empresários do ensino não divulgam os casos das escolas privadas para não manchar a sua imagem”, denuncia o vereador petista. Para Betão, que também é professor, existe, de modo geral, uma lacuna nos cursos de licenciatura, pois, neles, não há preparação efetiva do futuro docente a fim de conciliar e equilibrar teoria e prática educacional.

Voz do povo

O bacharel em Direito, Antonio Carlos da Silva Júnior, estava na plateia, participando do debate, e manifestou sua opinião. Para ele, urge que os estudantes tenham exemplos benéficos para consolidarem sua formação pessoal e de caráter, afastando-se das drogas e da violência. Dessa forma, para o especialista em Ciências Penais, o professor deve atuar como um referencial para os alunos. Por isso, o docente precisa, também, repensar suas atitudes frente os estudantes e demais hábitos como, por exemplo, o fumo e o consumo de álcool.

A Audiência Pública reuniu na Câmara educadores, estudantes e demais cidadãos para debater o assunto

A Audiência Pública reuniu na Câmara educadores, estudantes e demais cidadãos para debater o assunto

Maria Aparecida é diretora do CAIC Santa Cruz. Ela comentou a situação problemática que a escola enfrenta na região. O prédio, que não é murado, frequentemente é alvo de ações criminosas, deixando, assim, preocupados os profissionais que lá trabalham, uma vez que a segurança tanto dos alunos quanto dos educadores está em jogo. Uma professora do CAIC chamou a atenção para o fato de que os alunos têm se envolvido com drogas. Seja como usuários, seja como traficantes, existem alunos que “no turno da manhã, estão dormindo em sala de aula, porque passaram a noite como aviãozinho”, desabafou a professora. Segundo a docente, são crianças de oito a onze anos que vivem essa realidade.

O Sindicato dos Professores de Juiz de Fora também posicionou-se sobre a questão da violência e das drogas nas escolas. Flávio Bitarello confirmou o que Betão dissera na abertura da Audiência Pública. O presidente do SinproJF disse que “os jovens da escola privada, geralmente de classe média, carregam consigo uma certa arrogância. O uso de drogas e a violência está na rede particular de ensino também. Já vi professor de escola privada ir para a UTI após ser agredido”.

Informar para prevenir

Mauro Eduardo Barbosa Leite, farmacêutico e bioquímico, comentou, durante a Audiência, acerca das drogas lícitas e ilícitas. Suas colocações visaram à conscientização dos malefícios causados pelo consumo de substâncias entorpecentes. Segundo o especialista, é evidente que, cada vez mais cedo, meninos e meninas tornam-se dependentes químicos. “O álcool é a porta de entradas para o uso de outras drogas”. Mauro Barbosa ressaltou a importância da escola, da família e da religião como educadoras, sendo responsáveis diretas na formação de consciência dos jovens. “Vivemos uma época de prosperidade como país. A descoberta do Pré-sal garante riquezas para nossa nação. Mas resta-nos saber quem são as pessoas que vão administrar esse futuro. Que futuro há para os nossos jovens?”.

O tenente Alexandre Antunes reforçou a necessidade de se priorizar a prevenção

O tenente Alexandre Antunes reforçou a necessidade de se priorizar a prevenção

O tenente Alexandre Barbosa Antunes, do 27º BPM, acentuou que a Polícia Militar concentra seus esforços na prevenção às drogas. Exemplificando essa política preventiva, Antunes citou o Proerd – Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência – que conta com militares treinados exclusivamente para lidar com os alunos dentro das escolas. O tenente Geovane Campos Miranda comentou sobre a necessidade de a população juizforana enxergar o caráter de prevenção que a PM possui: “Entristece-me ver que a PM só é vista como repressiva e não como preventiva”.

Visões políticas

Após ouvirem as colocações da plateia e dos diversos setores da sociedade, os vereadores começaram a tecer seus comentários, tentando chegar a alguma proposta concreta para reduzir os casos de violência e prevenir as drogas nas escolas de Juiz de Fora. Um aspecto foi comum a todas as proposições: a educação é fundamental nesse processo. Entretanto, ocorre que a própria educação tornou-se vítima desses problemas sociais que, como ressaltado na Audiência Pública, têm suas razões na desigualdade social. Também foi consenso que a solução para essas dificuldades são mais mediatas que imediatas.

Calais defende que a Guarda Municipal deveria garantir a segurança das instituições de ensino

Calais defende que a Guarda Municipal deveria garantir a segurança das instituições de ensino

Para o vereador Noraldino Júnior (PSC), uma ação prática para coibir a violência e as drogas nas escolas da cidade seria utilizar a Guarda Municipal para fortalecer a segurança nesses espaços. Além disso, o vereador também sugeriu a criação de um movimento de combate às drogas e à violência em Juiz de Fora. Isauro Calais (PMN) também concorda com a proposta de utilizar a GM para dar segurança às escolas: “Se nós temos essa mal fadada Guarda Municipal, que anda para cima e para baixo sem rumo, poderíamos dar rumo para ela, colocando-a na porta das escolas, evitando a aproximação de marginais ao ambiente escolar para aliciar nossos estudantes”. O Pastor Carlos (PRB) explicou que discussões com o Executivo já foram realizadas, tratando de um projeto anti-drogas para a cidade.

Ratificando a opinião de Mauro Barbosa, Dr. Luiz Carlos (PTC) expôs a necessidade de preservação da família para melhor educar e auxiliar os jovens na prevenção às drogas. Isauro Calais também reforçou essa ideia, citando as festas rave que acontecem na cidade e onde, segundo o vereador, há consumo livre de drogas. “Nessas festas, minha filha só vai se eu não ficar sabendo”, disse Calais. Para Figuerôa (PMDB), a solução depende da criação de escola de tempo integral e de apoio às iniciativas de prevenção já existentes.

Flávio Cheker pondera sobre a necessidade de ações internas e externas à escola para solucionar o problema das drogas e da violência

Flávio Cheker pondera sobre a necessidade de ações internas e externas à escola para solucionar o problema das drogas e da violência

Flávio Cheker (PT) comentou sobre a Síndrome de Burnout que atinge diversos docentes. Para o legislador, a mudança da atual situação que atinge as escolas envolve ações internas da e na própria escola e ações externas, que correspondem às intervenções políticas. O petista tratou da lei municipal nº 11.658 de sua autoria. A norma dispõe acerca do Projeto Juventude Alerta. O vereador Júlio Gasparette, um dos proponentes da Audiência Pública, comentou sobre a possível criação de uma lei para penalizar o agressor de professores e a família dele caso seja menor de idade.

Respostas do Executivo

Eleuza Maria Barboza disse que a proposta de educação integral é inviável para o município

Eleuza Maria Barboza disse que a proposta de educação integral é inviável para o município

Após acompanhar toda a discussão e as propostas do Legislativo, a secretária municipal de Educação Eleuza Maria Barboza se pronunciou. De início, Eleuza disse que as drogas e a violência são reflexos da sociedade na escola. “Nossa função é fortalecer a escola, o professor. É preciso o estabelecimento de regras de convivência que preveem punição às condutas impróprias”. Comentando sobre a proposta de educação integral, a secretária de Educação disse que não há condições de a Prefeitura criar esse sistema educacional. Em contrapartida, Eleuza citou iniciativas desenvolvidas pela Funalfa e pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer que visam ampliar o tempo das atividades ligadas à escola. Tratando das dificuldades relatadas pelos educadores na Audiência, a secretária disse que “todas as pessoas que quiserem podem solicitar ajuda à Secretaria Municipal de Educação”.

Palavras finais

Ana do Padre Frederico motivou a classe docente a persistir nos ideais da educação

Ana do Padre Frederico motivou a classe docente a persistir nos ideais da educação

As colocações finais ficaram por conta da vereadora proponente da Audiência, Ana do Padre Frederico. A legisladora é educadora há 41 anos e testemunhou que, algumas vezes, foi necessário que ela retirasse armas das mãos de estudantes. Concluindo suas colocações, a vereadora leu a crônica “O professor está sempre errado”, tendendo à motivação, incentivando a perseverança dos docentes. Tratou-se de um apelo emocional que, infelizmente, não faz esquecer os arranhões, as agressões e as intimidações que os professores vêm sofrendo.

Veja o depoimento de Tiara Lopes, jovem integrante do projeto Jovens Contra as Drogas.

Insegurança atinge as escolas

por Bruna Cipriano

Segundo dados da Tribuna de Minas, em Juiz de Fora, a cada três dias letivos, um professor, diretor ou funcionário de escola é alvo de algum tipo de violência praticada por aluno ou familiares de estudantes dentro da instituição educacional. O número oficial de registros da Polícia Militar é alto e considerado preocupante.

Neste ano, uma educadora teve o braço lesionado quando tentava apartar uma briga entre estudantes. Outro caso registrado foi o que um menino de 11 anos que arremessou um copo d’água na professora ao ser repreendido. Muitas vezes, esbarra-se na impunidade, já que muitas ocorrências são ocultadas pela própria escola, ocasionando apenas notificações aos agressores.

Os dados do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) revelam o que está acontecendo por trás dos muros não apenas de colégios públicos, mas, também, de particulares. Para cada 65 casos de violência nas escolas nas redes públicas de ensino, tem-se três casos na rede privada. As estatísticas mostram que as escolas pagas, frequentadas, costumeiramente, por estudantes cujas famílias possuem melhor poder aquisitivo não estão blindadas contra a violência que afeta a sociedade.

Para a coordenadora do Sindicato dos Professores de Juiz de Fora (SinproJF) Fátima Barcelos, a violência escolar é um reflexo do país que vivemos. “O modelo político e econômico que temos nos leva ao individualismo e ao egoísmo. Esses meninos muitas vezes vêm de famílias desestruturadas”, analisa.

Em casos de violência, é comum que o professor leve o caso à Secretaria de Educação e, dependendo da gravidade do fato, faz um boletim de ocorrência. A direção escolar tenta chamar os pais e/ou responsáveis do agressor para ficarem ciente do acontecido e assumirem a responsabilidade.

Educação ameaçada - Bruna Cipriano, Edson Munck Jr. e Thanius Sarchis

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1 comentário

Arquivado em Especiais

Uma resposta para “Educação ameaçada

  1. Iluska Coutinho

    Matéria muito bem redigida e amarrada. Os links foram dispostos de maneira acertada, e com conteúdo pertinente ao assunto tratado. As fotos ilustraram a audiência na Câmara, com o registro do evento e dos participantes dele. O vídeo, feito com o depoimento do especialista em Ciências Penais, é explicativo, deixando o advogado expor sua opinião sobre o consumo de drogas e a violência presentes em escolas de Juiz de Fora e, dessa forma, complementando as informações repassadas pelo texto. O mesmo pode ser notado no vídeo feito com o vereador Júlio Gasparette avaliando a importância da audiência pública e ainda com o depoimento da integrante do projeto Jovens contra as Drogas.
    O link com a matéria do Proerd, feita pela Agência Minas, apesar de institucional, explica a proposta desenvolvida pelo projeto e a “resposta” da comunidade sobre as ações executadas pela Polícia Militar. A definição de festa rave, Síndrome de Burnout, assim como a Lei Municipal 11658 permitem um conhecimento amplo acerca do que foi debatido na reunião, e um jornalismo feito de forma comprometida, e pedagógica. Os links para os sites da Funalfa, e da Secretaria de Esporte e Lazer, também complementam as informações.
    Por outro lado, o desdobramento da reportagem, que aborda a insegurança nas escolas, contém menos informação do que o que deveria ter sido apurado, aproveitando-se de dados publicados em um jornal impresso na cidade. Na verdade, a repórter deveria ter buscado outras informações para tornar a matéria mais completa. Ainda faltaram ilustrações para esta parte (não existem fotos, sonoras ou vídeos).

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