Debates ressaltam democratização dos meios

Por Ana Paula Nascimento e Monique Soares

No segundo dia da Conferência foram realizados dois debates no Instituto Metodista Granbery, a partir das 8h30. O Regimento da I Conferência Municipal de Comunicação de Juiz de Fora foi lido e dispunha de oito capítulos explicativos, bem como os objetivos, o tema, a organização, os participantes, a inscrição, a plenária, o custeio do evento e as disposições finais.

Jornalistas, estudantes, representantes de movimentos socias e pessoas da sociedade civil reunidas no debate de sábado

Jornalistas, estudantes, representantes de movimentos socias e pessoas da sociedade civil reunidas no debate de sábado

Logo depois, os palestrantes foram convidados à plenária: o representante do Instituto Voz, Paulo Edison Índio, o presidente da União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais (UEE-MG), Felipe Canedo, a Jornalista, Cientista Social e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Tâmara Liz e o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Metalúrgica de Juiz de Fora (STIM-JF), João César da Silva. Eles discutiram assuntos relacionados aos “Movimentos Sociais” com a presença do professor Dr. Paulo Roberto Figueira Leal, da UFJF, que atuou como mediador.

Paulo Edison, Tâmara Liz, Rodrigo Barbosa, Paulo Roberto, Felipe Canedo e João César compuseram a 1ª Mesa

Paulo Edison, Tâmara Liz, Rodrigo Barbosa, Paulo Roberto, Felipe Canedo e João César compuseram a 1ª Mesa

Paulo Edison, do Instituto Voz, falou da segmentação dos Movimentos Sociais e da importância da comunicação no mundo contemporâneo. “Como os afro descendentes foram e são tratados nos meios de comunicação?”, foi uma das perguntas que ele incitou. Ele também chamou de “desumanização” o processo escravagista. Paulo Edison detalhou temas relacionados à cultura negra.

Ele fez uma crítica à mídia dizendo que “o padrão estético brasileiro imposto foge muito da característica da metade da população deste país. Estamos falando de um Estado democrático, onde todas as pessoas têm que ser representadas pela sua diversidade, afinal a Constituição Brasileira diz que fazemos parte de um país pluriétnico e multicultural, apesar dos meios de comunicação não refletirem isso”. Ele ainda esclareceu que sua intenção não era fazer um “racismo ao contrário”, mas sim lutar pela representatividade dos negros na mídia.

João César evidenciou a necessidade da presença das causas sindicais na mídia

João César evidenciou a necessidade da presença das causas sindicais na mídia

No fim de sua apresentação, Paulo Edison falou da chegada da internet e das redes de comunicação. Assista à entrevista em que o palestrante fala sobre a necessidade de adaptar a educação às novas tecnologias.

Em seguida foi a vez de Felipe Canedo, presidente da UEE-MG que falou da importância de se pensar o objetivo da Conferência e a democratização da informação. Ele relembrou o Congresso que a União Nacional dos Estudantes (UNE) fez em Brasília no mês de julho. Lá ocorreu uma passeata em prol da Petrobrás e da autonomia do país sobre o petróleo e contou que foi divulgado pela mídia que o movimento estudantil estava sendo patrocinado pela Petrobrás. Além disso, segundo ele, o patrocínio ocorreu, mas “a grande mídia não considerou em nenhum momento a história de lutas que a UNE tem”. Felipe acrescentou que todos meios destacaram o patrocínio recebido e não o problema do petróleo como o principal assunto. “Por isso é necessário uma maior democratização da informação, para abrir espaço para discussões na mídia”. O estudante mencionou o diploma de Jornalismo e considerou apropriado ler trechos do Artigo 5º da Constituição que se refere à Lei de Imprensa, destacando o Direito à Resposta e a Liberdade de Expressão. Apontou também a necessidade de uma lei que proteja a cultura regional, a caracterização da TV Brasil como televisão pública.

A terceira palestra do dia foi com Tâmara Liz. A jornalista falou principalmente da situação das rádios comunitárias em Juiz de Fora e da necessidade de se regulamentar o tempo de programação  dedicado às notícias locais. “Segundo uma pesquisa feita em São Paulo, 29% das rádios comunitárias que estão no ar não conseguem explicar o objetivo e a função de sua programação. Além disso, 53% dessas rádios têm vinte horas por dia de música e nenhum espaço para discutir os problemas sociais”.  Para ela, o problema está na busca pela formação, já que “hoje há um interesse maior pelo formato e não pelo conteúdo do que será transmitido”. Assista à entrevista feita com Tâmara Liz sobre a programação das rádios locais.

A última palestra do tema “Movimentos Sociais” foi feita por João César da Silva, presidente do STIM-JF, que tratou da falta de programas responsáveis por discutir os movimentos sindicais nos veículos de comunicação. “Isso ocorre devido à própria política de concessão de rádio e televisão que existe neste país. A comercialização, a alta competitividade entre os veículos e o interesse pelo lucro impedem a criação de espaços para discutir os problemas sociais nas grandes redes ”, explicou. Para o presidente, a Conferência é uma oportunidade de discutir os problemas sindicais e lutar pelos seus direitos de estarem presentes na mídia. “É um grande passo para a uma mudança desta realidade”, concluiu.

Ao final desta primeira etapa, perguntas foram feitas aos palestrantes abordando os seguintes assuntos: a existência de programas que discutam os sindicatos, o diploma de jornalismo e a possibilidade de inclusão social de deficientes auditivos.

Adenilde Petrina e Cláudia Lahni abordaram a situação das rádios comunitárias na cidade

Adenilde Petrina e Cláudia Lahni abordaram a situação das rádios comunitárias na cidade

A segunda rodada de debates foi dedicada ao tema “Apresentação do cenário de Juiz de Fora”. O mediador foi o secretário de comunicação da Prefeitura de Juiz de Fora, Rodrigo Barbosa. A primeira palestrante a se apresentar foi a professora da UFJF, Cláudia Lahni, que abordou a relação de poder existente na mídia e a ausência de espaço para os segmentos sociais nos veículos de comunicação. “Precisamos pensar no que fazer para democratizar a informação e não haver mais este poder”, exaltou a professora. “Temos uma situação de monopólios, conglomerados que é nacional e local”, enfatizou. Ela ainda explicou como esta relação de poder funciona e as possíveis conseqüências.

Cláudia Lahni também suscitou a discussão sobre as rádios e TVs comunitárias. A professora citou a audiência realizada na Câmara Municipal de Juiz de Fora, no dia anterior, sobre a concessão às rádios. Por fim, sugeriu questões que poderiam ser levantadas nos Grupos de Trabalho organizados no final do dia.

Em seguida, foi a vez da representante do Sistema Radiodifusão Comunitária Santa Cândida,  Adenilde Petrina Bispo. “As classes ricas e poderosas tentam apagar o nosso passado de lutas, não dando o direito à expressão”, foram suas palavras iniciais. Ela falou da história da radiodifusão no município. “Muitas rádios comunitárias foram fechadas. Desde a década de 90, quando elas surgiram, sofremos com a repressão”, revelou. Para Adenilde, isso ocorria porque a sociedade tinha a chance de se expressar. “A palavra tem o poder de conscientizar e trazer a informação, tornar o sujeito capaz de transformar uma sociedade”. A representante conta que não esperava uma mobilização tão grande. Adenilde acredita que as discussões irão dar visibilidade à problemática das rádios.

Lúcia Schimidt questionou o salário do profissional de comunicação em Juiz de Fora

Diretora questionou o salário do profissional de comunicação em Juiz de Fora

A diretora do Sindicato dos Jornalistas, Lúcia Schmidt ministrou a última palestra. Ela falou da visão que a sociedade tem sobre o jornalista e do valor dado a este profissional. Tratou de questões salariais e da situação atual do Sindicato em Juiz de Fora. “Estamos reinventando nossa identidade para saber que tipo de sindicato queremos para nós, para defender nossos direitos”, destacou. Ouça a entrevista feita com Lúcia Schmidt sobre o valor dado ao profissional de Comunicação.

Em entrevista, o coordenador da Casa de Cultura Evailton Vilela, Jefferson da Silva Januário, questionou a presença de defesas particulares e não do interesse coletivo nos debates. Para ele, além do direito à concessão, é preciso discutir também os deveres.

O presidente da Associação dos Surdos, Rodrigo Geraldo Mendes e os jornalistas Aníbal Pinto e Cláudia Figueiredo fizeram perguntas para a mesa

O presidente da Associação dos Surdos, Rodrigo Geraldo Mendes e os jornalistas Aníbal Pinto e Cláudia Figueiredo fizeram perguntas para a mesa

Já na parte da tarde, os inscritos na Conferência foram divididos entre dez Grupos de Trabalho de acordo com seu interesse: Políticas de Concessões; Rádios e TVs Comunitárias; Mídias Alternativas; Educomunicação; Conselho Municipal de Comunicação; Mídias Digitais e Inclusão Social; Representação dos Segmentos Historicamente Oprimidos; Produção Regional de Comunicação; Comunicação Sindical e Fim do Diploma e da Lei de Imprensa. Cada grupo se reuniu em uma sala com um mediador e um relator indicados pela Comissão Preparatória. Foram distribuídos textos que serviriam de subsídios para a discussão que objetivava elaborar no mínimo cinco propostas para serem apresentadas e votadas na Plenária Final do evento.

O mestre de capoeira, Paulo Elias Gomes, participou de todas as etapas como observador. Ele diz que seu conhecimento foi ampliado em relação à importância da comunicação. Paulo participou do grupo de Rádios e TVs Comunitárias e alegou que todos tiveram direito à opinião nos debates.

Após duas horas de discussão nos Grupos de Trabalhos, 62 propostas foram lidas e votadas pelos delegados. Elas serão encaminhadas à Conferência Estadual e, posteriormente, à Conferência Nacional.

Nos dias 2, 3 e 4 de dezembro será realizado o VII Encontro Regional na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Este ano, a programação será especial em virtude da comemoração dos 50 anos do curso de Jornalismo da UFJF. Todos os palestrantes são ex-alunos do curso.

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