Crise Econômica Mundial: repercussões do fim

Por Gláucia Almeida

Há algumas semanas os principais jornais do Brasil e do mundo noticiaram com empolgação que os Estados Unidos estavam finalmente saindo da crise econômica mundial. Porém, o clima de euforia parece não ter durado muito. O Fundo Monetário Internacional (FMI), em seu último relatório sobre a situação orçamentária dos membros do G20, garantiu que a dívida contraída pelos países ricos durante a crise fará os juros subirem em até dois pontos percentuais em nível mundial nos próximos anos. Segundo o relatório, esta dívida pode alcançar até 118% do Produto Interno Bruto (PIB) nesses países até 2014.

O cientista político Paulo Roberto explica a causa do aumento dos juros

De acordo com o cientista político Paulo Roberto de Figueira Leal, essa é uma dívida interna dos países que adotaram altos investimentos para resgatar empresas que estavam falindo. Esses países criaram incentivos ao consumo através de reduções fiscais como medidas de combate à crise. “Isso tudo criou uma situação fiscal desfavorável, um déficit”. O cientista social explica que o anúncio feito pelo FMI é uma ação comum tomada neste tipo de situação pós-crise. “A curtíssimo prazo não há qualquer indicação de que os preços vão aumentar muito, mas a médio prazo, depois que se vencer a crise, com estados mais endividados, existe o risco de inflação. Para combater a inflação, o que o receituário liberal tradicional sugere? Aumento de juros”.

No momento atual, as economias mundiais ainda estão fazendo um brutal esforço para sair da recessão, à custa inclusive de aumento do déficit dos governos por causa desses perdões fiscais. Mas a previsão é que quando essa crise chegar ao fim, os Estados optem por combater um possível processo inflacionário com a política de alta de juros. Paulo Roberto traduz esta situação econômica contraditória comparando-a com uma enfermidade. “Tem uma doença chamada diverticulite, que é quando uma pessoa não come muita fibra, e aí cria uma inflamação nos divertículos do intestino. Na hora que a pessoa está em crise, você não pode dar fibras a ela, mas depois que a crise passa qual é a solução? Fibra”.

Em entrevista coletiva, o diretor do Departamento de Assuntos Fiscais do FMI, Carlo Cottarelli, afirmou que os países que aprovaram pacotes de estímulo à economia devem mantê-los em 2010, inclusive os apoios fiscais às indústrias de base, pois a recuperação econômica ainda é frágil em todo o mundo. Além disso, o FMI também defendeu um congelamento da despesa per capita, excluindo os gastos com previdência e saúde.

Paulo Roberto explica que, a curto prazo, os Estados provavelmente vão manter essas medidas de incentivos fiscais, e mais tarde, para controlar algum descontrole inflacionário, eles aumentam os juros. “Ambientes de juros mais altos tendem a criar dificuldades para captação de recursos. À medida que as empresas veem encarecido seu custo para conseguir empréstimos, elas pegam menos dinheiro emprestado e investem menos. Ao investirem menos, isso tem um custo social, mas é um custo que deve ser pago, de acordo com o liberalismo, se for impedir surtos inflacionários”.

No relatório apresentado, o FMI pediu aos Governos dos países ricos que “elaborem e comuniquem, atualmente, estratégias críveis de saída” para seus programas de estímulo. De acordo com o Fundo, os Governos dos países avançados devem considerar aumentos de impostos equivalentes a 3% do PIB nos próximos anos.

O Fundo prevê ainda que Brasil, México e Turquia já começarão no próximo ano a “apertar o cinto” para sanear suas contas fiscais. Mas apesar disso, Cottarelli afirmou que estes países não são fontes de preocupação imediata, pois ao contrário de outras crises, o ritmo mais forte da recuperação nos países em desenvolvimento torna sua dívida mais fácil de ser sanada.

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