Beber para não Comer – a filosofia da anorexia alcoólica

por Laís Souza

Consumir bebida alcoólica em excesso e deixar de se alimentar. Esses são os principais sintomas que caracterizam um distúrbio muito comum nos dias de hoje. A anorexia alcoólica, ou drunkorexia, como foi batizada informalmente nos Estados Unidos (drunk em inglês significa bêbado), atinge principalmente, jovens e adultos de 20 a 40 anos. As causas são as mais diversas.

A cantora Amy Winehouse, antes e depois da anorexia alcoólica (Foto: Mail Online)

O que leva alguém a protagonizar cenas tão desconcertantes como Amy Winehouse andou fazendo nos últimos tempos. Assim como ela, atrizes que integram o time das celebridades de Hollywood, como Lindsay Lohan e Kirsten Durst, também são vítimas do distúrbio que leva ao alcoolismo e à perda excessiva de peso.

Problemas emocionais

Nas mulheres, o distúrbio está muito associado ao estado emocional. Problemas como depressão e ansiedade são uma das causas que levam as mulheres a beber demais. “Nesses casos, o álcool funciona como anestésico para emoções negativas e a pessoa frustrada, consome para esquecer os problemas”, explica a psicóloga Ana Stuart. “O alcoolismo esconde carências profundas e a anorexia é a negação da vida. É um processo depressivo, em que a pessoa desiste de viver. Na anorexia alcoólica, os dois problemas aparecem simultaneamente”, completa.

Emagrecer a todo custo

Por outro lado, a busca pela perda de peso pode ser proposital e estar relacionada ao desejo de se adequar ao padrão de beleza vigente. As modelos magras que figuram nas passarelas e estampam capas de revistas, se transformam em um ideal a ser alcançado pelas mulheres comuns. O álcool então, é utilizado como auxiliador no processo de emagrecimento. Age como um inibidor de apetite e à medida que seu efeito passa, a pessoa consome doses maiores e com mais freqüência, evitando com isso, a ingestão de nutrientes.

Modelos que vendem a magreza nas passarelas e nas capas de revistas (Fotos: Jornal O Globo online e Editora Abril online)

A novela de Manoel Carlos, Viver a Vida, retrata bem esse distúrbio. A personagem Renatinha, interpretada por Bárbara Paz, é uma garota jovem, viciada em álcool e extremamente preocupada com a forma física. Dona de um corpo com proporções ideais, Renatinha se acha gorda e tem um medo constante de ganhar mais peso. Por conta disso, substitui a comida por bebida alcoólica a qualquer hora do dia e acaba se debilitando. Além de protagonizar cenas de escândalos provocados pela embriaguês, a personagem sente-se fraca e sem capacidade para guiar a própria vida.

Renatinha, personagem de Bárbara Paz na novela Viver a Vida, em uma cena na qual se machucou por estar embriagada (Foto: internet)

O vício que pode levar à perda de peso

No caso de jovens, é comum comportamentos que incentivam um grande consumo de álcool em um curto espaço de tempo. Na busca pela aceitação pelo grupo, muitos adolescentes acabam tornando-se viciados em bebidas alcoólicas. E aí, podem trocar a comida por álcool não por opção, mas por uma conseqüência fisiológica. “Porque o álcool causa, organicamente, a sensação de saciedade. Por isso é comum encontrar mendigos que bebem muito”, explica Ana.

No grupo de apoio à alcoólatras, conhecido como AA (Alcoólicos Anônimos), essa situação é bastante comum. Nelson (que prefere não relevar o sobrenome por conta de uma tradição de anonimato do AA) sabe bem como é isso. Ele já foi alcoólatra e hoje trabalha na sede dos Alcoólicos Anônimos de Juiz de Fora. Nelson explica que, quando a pessoa bebe além do limite que o organismo suporta, acaba perdendo o apetite. “O álcool dá a falsa sensação de saciedade, mas ele não tem as vitaminas e os nutrientes de que a pessoa precisa para o organismo se suprir. Quando termina a embriagues, dá tremedeira. Tanto pela falta do álcool, quanto pela fraqueza do organismo. E aí, a pessoa bebe de novo e não come. E se comer, a bebida não pára no estômago, dá enjôo”, completa. E aí, o emagrecimento é questão de tempo.

Começar aos poucos é a saída

A recuperação é um processo lento. Nelson explica que é preciso começar devagar, com alimentos leves, para que o organismo não se ressinta e tenha tempo de adaptação. “É como uma pessoa que ficou internada e não pôde comer nada por um certo tempo. Se quando ela voltar a comer, investir logo em uma feijoada, o organismo vai se ressentir”, exemplifica.

Mas para que o tratamento comece de fato e tenha sucesso, é preciso muita força de vontade. Para Ana Stuart, se a pessoa que sofre o distúrbio ainda não estiver disposta a iniciar o tratamento. “A família tem que deixar o indíviduo chegar ao fundo do poço. Porque quando não quer, a pessoa burla tudo. Para quem está no vício, você falar que não pode é reforçar esse vício. Um grande exemplo disso é a Renatinha, da novela. Foi só quando todo mundo desistiu dela, que ela resolveu aceitar o tratamento”, pondera.

E com a experiência de quem já vivenciou essa situação, Nelson conta que nos primeiros três meses a situação é mais complicada. “No começo da abstinência, eu tremia tanto que quando segurava uma xícara de café, entornava a metade. Tive insônia. E o pior é que o subconsciente sabe que se tomar um copo de cachaça, tudo isso pára. O problema é que você não fica no primeiro copo”.

Durante o tratamento, as recaídas são mais do que aceitáveis. São esperadas, mas, ao mesmo tempo, perigosas. “O problema é que o organismo não está preparado e é aí que vem a overdose”, pondera Ana Stuart.

Nelson e Ana são unânimes quanto à cura da anorexia alcoólica: é um processo de tratamento do corpo, da mente e do espírito. Para tratar da mente, o psicólogo busca as causas ocultas do distúrbio. Encontra os problemas emocionais que motivaram o vício e trabalha essas carências junto com os pacientes. Para auxiliar o corpo, o psiquiatra é o mais indicado, porque pode prescrever medicamentos para ajudar nas primeiras fases de abstinência, para que elas se tornem suportáveis ao indivíduo. Mas, e quanto ao espírito?

“A Fé é fundamental. Aqui no AA, recebemos pessoas de todos os tipos. Cada uma tem a sua religião e nós respeitamos isso. Tem uns que dizem até que são ‘ateus, graças a Deus’, mas eles acreditam em alguma coisa, nem que seja neles mesmos. Ensinamos a todos, que eles precisam buscar forças no Poder Superior. As mensagens que retiramos são todas da Bíblia Sagrada, que é a mesma para qualquer religião”, comenta Nelson.

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