Um estudo sobre a fala mineira

por Lorena Molter

A professora da Faculdade de Letras da UFJF, Patrícia Cunha Lacerda, está desenvolvendo o projeto “A língua portuguesa em Juiz de Fora no século XIX”. Patrícia iniciou a pesquisa na universidade, em agosto do ano passado, quando passou a ocupar o cargo de professora adjunta. A pesquisadora destaca a importância de seu estudo para Juiz de Fora. “Esse trabalho tem a função de tratar a sócio história do dialeto mineiro, estudando pontualmente o falar juizforano. Então, ele vai contribuir para identidade da cidade, para cultura e também para o estudo lingüístico.”

 As atividades da pesquisa englobam estudos de audiências criminais ocorridas em Juiz de Fora no século XIX. A professora justifica a seleção dos materiais para o estudo. “Nossa escolha foi por documentos que permitissem atestar o vernáculo, a fala realmente no século XIX. Então o primeiro cuidado foi na escolha do tipo de documento e, depois, compor um corte que realmente fosse vasto para representar o português falado nesse período na cidade.” Ela ainda destaca as precauções que toma no manuseio dos materiais históricos. “O trabalho tem de ser muito meticuloso e nós não podemos tirar cópia. Procedemos a digitalização com uma câmera digital e, posteriormente, as bolsistas fazem a transcrição.”

 A influência dos escravos na língua

A explicação para a escolha do século XIX como foco da pesquisa está no fato de Juiz de Fora ter sido potência cafeeira nesse período. Assim, a escolha da cidade é justificada pela importância política e econômica que ela detinha no século estudado, período em que, o município foi o que mais recebeu o maior escravos no estado de Minas Gerais.  Dentro desse cenário, Patrícia ficava intrigada pela ideia das pessoas de que a língua era influenciada pelo modo culto; o que seria improvável já que 60% da população da cidade era formada por escravos.

A partir da análise dessa realidade populacional, a pesquisadora chegou à conclusão que considera mais interessante. “Pelos dados analisados até agora verificamos que a influência escrava foi muito preponderante mesmo na formação do falar de Juiz de Fora.”

Outros pontos observados através dos estudos foram as marcas do século XIX no falar mineiro atual. As pesquisas indicaram três traços fonéticos. “Tecnicamente observamos o altiamento da vogal pré-tônica (a pronúncia do “i” e do “u” em vez do “e” e do “o”, como em “minino“ e “pulícia“. Além disso, verificamos a monotongação do ditongo, exemplificado por “cadera,  e “pexe” e a ditongação diante de sibilante como “faiz“, “mêis“ e “veiz“.”, apresenta a professora.

A influência na língua hoje

O próximo passo da pesquisa será o estudo de como os estudantes que vem de outras cidades influenciam a fala juizforana atual. Patrícia ressalta o novo estudo. “Além dessa pesquisa histórica que eu espero continuar agora nos próximos anos, também pretendo fazer uma pesquisa sincrônica com os dados atuais do português de Juiz de Fora; verificando que aquilo que aconteceu no século XIX com os escravos, o contato lingüístico, também estaria ocorrendo hoje com a presença dos universitários.”

Divulgação do projeto

Para a divulgação do projeto, os estudos sobre a língua portuguesa em Juiz de Fora no século XIX estão em uma página na internet. Conheça o site do projeto.

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