16 de maio: uma data para comemorar e refletir

Satisfação e preconceito estão presentes no trabalho dos garis

Por Lorena Molter e Luana Lazarini

No dia 16 de maio foi comemorado o dia do Gari, profissional que cuida da limpeza das cidades. A data foi instituída por uma lei em 31 de outubro de 1962.

O gari tem um papel fundamental para o bem estar da população porque impede que o lixo se acumule nas ruas e nos bueiros, evitando as enchentes e a proliferação de bichos e doenças.

Como surgiu a profissão

A profissão de gari surgiu no tempo do Império, no Rio de Janeiro. quando um empresário chamado Aleixo Gary foi contratado para organizar o serviço de limpeza das ruas e praias da cidade. Os empregados dele, responsáveis pela coleta e remoção do lixo, ficaram conhecidos como “garis”.

Gary trabalhou pouco mais que uma década nessa atividade, mas seu legado está presente até os dias de hoje. Para saber mais sobre como surgiu a profissão do gari clique AQUI

Os garis em Juiz de Fora

O Departamento Municipal de Limpeza Urbana (Demlurb) é o responsável pela manutenção da limpeza da cidade. Para a realização desse trabalho, o órgão conta com aproximadamente 120 garis, predominantemente mulheres. Como Juiz de Fora possui mais de 200 bairros, esse número não é suficiente para que haja varredores fixos em cada área da cidade. Por isso, dentre o número total desses profissionais, há um grupo que forma um mutirão organizado para fazer a limpeza de vários pontos do município. O restante dos garis é dividido, normalmente, em áreas comerciais.

Em Juiz de Fora, esses trabalhadores ganham, atualmente, o salário de R$565,00. Além disso, eles recebem um adicional de 40% desse valor referente a uma taxa de insalubridade e ainda têm direito a vale transporte.

Trabalhando 44 horas por semana, os varredores percorrem, em média, de 500 a 700 metros por dia. Aos domingos, dia de feira, é feito escala. Cada gari trabalha um domingo por mês e é recompensado com uma folga durante a semana. Em eventos como JF Folia e Festa Country, por exemplo, eles fazem hora extra.

Uma profissão estável

Para trabalhar como gari, é necessário ser aprovado em um concurso público. A prova é dividida em duas etapas, a parte escrita e o teste físico. A gari Fernanda Carvalho, selecionada em 2007, decidiu fazer o exame em busca de estabilidade na vida profissional. “Antes eu trabalhava no comércio. Decidi ser gari pelos benefícios de ser uma funcionária pública.”

Depois de participar do concurso, os pré-aprovados fazem exames de sangue e ortopédicos para saber se estão aptos a realizar a função. Os selecionados para trabalhar no Demlurb, além da remuneração, contam com suporte médico, psicológico e odontológico.

Os equipamentos necessários

Os materiais de trabalho dos garis não se resumem em vassoura, pá e carrinho de lixo. O uso do uniforme da empresa é essencial, assim como o uso de um calçado específico e das luvas. O conjunto contribui para reduzir os riscos de infecção e de acidentes cotidianos. No entanto, o uso desses itens nem sempre é bem visto pelos garis. O uso da luva, por exemplo, é obrigatório, mas alguns não a utilizam. Por isso, é preciso que a segurança do trabalho faça uma fiscalização constante.

Um trabalho pouco reconhecido

O trabalho dos garis é importante para a sociedade, mas, muitas vezes, não é valorizado pela sociedade. Para Fernanda Carvalho, a população não respeita o trabalho dos varredores. “As pessoas fazem descaso. Não colaboram com os horários de colocar o lixo na rua”. Segundo Cristina Jacinto, que trabalha há 17 anos como gari, a população não colabora com o trabalho desses profissionais. “A gente varre, mas a cidade nunca fica limpa porque as pessoas continuam jogando lixo no chão.” O diretor do Demlurb, Aristóteles de Faria Neto, completa: “tem pessoas que colocam a sacola em cima da lixeira, mas não colocam dentro. O cuidado com o lixo deve ser uma questão de educação ambiental.”

A falta de reconhecimento do trabalho dos garis é um problema cultural, destaca Fernanda. “Vai demorar muito para que as pessoas enxerguem o gari como um profissional tão importante quanto um médico. A gente cuida da saúde da cidade também porque, se não tiver ninguém para retirar o lixo das ruas, doenças vão se proliferar.”

A motorista do caminhão do Demlurb, Gisele Coutinho, destaca que os varredores têm um trabalho pesado. “Eles realizam as atividades debaixo de sol e chuva durante o ano inteiro, por isso, devem ser valorizados.”

Veja uma reportagem sobre os garis AQUI.

Conscientização

O simples fato de se jogar uma garrafinha na rua pode causar danos ao meio ambiente prejudiciais à própria população. Aristóteles Faria destaca a falta de consciência das pessoas em relação aos impactos que o lixo pode causar. “Você joga uma garrafa no rio hoje, ela entope bueiro e volta na enchente. Tem pessoas que defendem o meio ambiente, que falam do Greenpeace e que acham um absurdo uma árvore ser derrubada na floresta. No entanto, falta a eles a reflexão de que colocar o lixo fora do dia da coleta e jogar uma garrafa fora da lixeira é tão devastador quanto ou mais para o meio ambiente.” O diretor do Demlurb conta que, na última limpeza feita limpeza na rede de captação, nos esgotos e nos bueiros, foram encontrados pedaços de tijolo, de pano e garrafas. (OUÇA)

Tempo de decomposição de alguns materiais:

PAPEL 3 MESES A VÁRIOS ANOS
CASCA DE FRUTAS 3 A 12 MESES
MADEIRA 6 MESES (em média)
CIGARRO 1 A 2 ANOS
CHICLETE 5 ANOS
LATA DE AÇO 10 ANOS
NYLON 30 ANOS
EMBALAGEM LONGA VIDA + DE 100 ANOS
PLÁSTICOS + DE 100 ANOS
PNEUS + DE 100 ANOS
LATAS DE ALUMÍNIO + DE 1000 ANOS
VIDRO + DE 10000 ANOS

Fonte: www.lixo.com.br

Preconceito

Apesar da importância do trabalho do gari para a sociedade, a profissão não é valorizada pela população. Frequentemente, os varredores são alvo de preconceito e passam por situações constrangedoras.

Janaína Gomes trabalha há oito anos como gari e conta que, para ela, o problema maior é no comércio. “Quando a gente entra em loja, as pessoas quase sempre não querem atender dependendo da roupa que estivermos. Porém, se você voltar lá arrumada, logo vem alguém atender.” Outra situação vivida pela gari foi em um supermercado. “Estava duas garis e eu e um funcionário do local ficou seguindo a gente.”

Situação semelhante viveu Fernanda Carvalho. “Na véspera do dia das Mães, fui a uma loja em um shopping da cidade e o segurança ficou me olhando diretamente.”

Fernanda diz que quando está na época do verão, se ela pedir água em uma casa no bairro onde está varrendo, têm pessoas que a tratam com preconceito. “Muitos nos dão água da torneira e outros nem oferecem.”

Ela fala de um caso que aconteceu com um amigo de trabalho. “A moça deu água a ele numa vasilhinha. Quando ele foi devolver, ela disse que podia jogar fora porque o recipiente era do cachorro.”

“Há pessoas que já te olham menosprezando e fazem comparação de que se você trabalha com o lixo, então, é um lixo”, completa Fernanda. (OUÇA)

Satisfação

Apesar de muitos garis considerarem a profissão cansativa, alguns dizem que gostam do que fazem. Para Janaína, é muito bom saber que o trabalho dela contribui para o bem-estar das pessoas. Outro ponto positivo destacado por Fernanda é o fato da atividade dos garis ser realizada em locais abertos e em contato com diversas pessoas.

A profissão também foi o meio para Fernanda conseguir estudar. Ela afirma que o salário é maior do que quando trabalhava no comércio. “Sinto orgulho por ter passado no concurso para ser gari.Estou feliz porque com o que ganho consigo custear os meus estudos.” Atualmente, a varredora cursa o quinto período de pedagogia.

Miss Gari

Em homenagem ao dia do gari, o Demlurb organiza todos os anos uma festa para comemorar a data. Este ano, o evento vai acontecer no dia 29 deste mês, no clube Tupynambás.

A principal atração da festa é o concurso de Miss Gari. De acordo com a motorista do caminhão do Demlurb e também organizadora do evento, Gisele Coutinho, o objetivo é valorizar as garis e o trabalho delas. “As expectativas para o desfile são as melhores. As varredeiras ficam eufóricas. Elas passam por um dia de beleza, cuidam do cabelo, da maquiagem e das roupas.”

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Arquivado em Cotidiano, Especiais

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