Reaproveitamento do óleo: uma saída ecológica

Por Alice Linhares

Todos os dias nas cozinhas de casas, restaurantes e lanchonetes são gastos vários litros de óleo de cozinha. Depois de utilizado, esse óleo muitas vezes acaba indo parar no ralo das pias. A maioria das pessoas sabe que essa prática é prejudicial para o meio ambiente, mas muitas vezes o comodismo e a falta de informação acabam fazendo com que o óleo vá direto para os esgotos da cidade. No entanto, hoje em dia é possível reutilizar esse material, evitando os danos para o meio ambiente.

O agrônomo Theodoro Guerra explica que o óleo de cozinha é altamente poluente. “Quando é jogado no solo, pode contaminar os lençóis freáticos. Quando as pessoas jogam na pia, ele vai diretamente para os córregos da região. Isso compromete toda a vida desse corpo hídrico. O óleo fica na superfície da água, diminuindo a oxigenação e a iluminação dos rios. Assim, os peixes e as plantas podem morrer. É realmente preocupante.” O agrônomo ainda explica que um litro de óleo pode contaminar aproximadamente 100 m² de água. Além disso, a decomposição do óleo de cozinha emite metano, um dos principais gases que causam o efeito estufa. Para ajudar a solucionar todos esses problemas, Theodoro diz que o óleo pode ser transformado em sabão ou ração para animais, por exemplo.

Em Juiz de Fora, muitas pessoas entregam o óleo usado em casa nas padarias e supermercados que funcionam como pontos de coleta. A Empresa Bio Renove existe desde 2008 e trabalha com a transformação desse óleo de cozinha. Ela mantém uma parceria com mais de 20 estabelecimentos, entre padarias e supermercados. Além do óleo recolhido nestes locais, há também parcerias com o comércio em geral e com indústrias. Cerca de 15 mil litros de óleo são beneficiados por mês.

O gerente de operação da Bio Renove, Alessandro Mássimo Alessandri, explica que o trabalho da empresa é baseado na troca: “O ser humano é naturalmente acomodado. Então acaba fazendo o que é mais fácil e joga o óleo na pia. Para estimular a transformação do hábito das pessoas, em troca do óleo que recolhemos nós oferecemos produtos de limpeza que nossa indústria fabrica. Assim, existe um estímulo para a participação”.

O trabalho de coleta da Bio Renove funciona da seguinte forma: os caminhões coletores passam nas empresas e instituições parceiras em dias determinados. O óleo é recolhido e levado para a Bio Renove. Começa, então, o trabalho de purificação do material. O óleo passa pela pré-depuração, etapa na qual é aquecido e acontece a retirada de acidez, umidade e resíduos. Assim, o produto final, que é chamado de insumo, é encaminhado para indústrias de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Dependendo da indústria, esse insumo pode ser transformado em ração animal, massa de vidro, sabão em pasta ou biodiesel.

Alessandro acredita que o trabalho realizado é de fundamental importância para a qualidade de vida da cidade. “Sendo uma empresa, nós temos o objetivo do lucro. No entanto, nosso trabalho também visa o bem-estar das pessoas. Todo mês, 15 mil litros de óleo deixam de contaminar a parte hídrica do meio ambiente e isso significa melhores condições para todos”.

Iniciativa que faz a diferença

O óleo recolhido na comunidade é coado, para a retirada das impurezas

Mas não são apenas as grandes empresas que podem ajudar nesse processo. É no salão da igreja católica do bairro Santa Cândida que dona Vera Lúcia e “seu” Luiz se reúnem para ajudar a igreja e também o meio ambiente. Desde 2008 existe um trabalho de reciclagem do óleo de cozinha no bairro. A ideia surgiu dos próprios moradores. A aposentada Vera Lúcia Fortunato Prudêncio e o seu marido, o pedreiro Luiz Carlos Prudêncio, transformam o óleo recolhido em Santa Cândida em sabão, que depois é vendido. O trabalho é voluntário e o dinheiro é destinado para a igreja.

São as pessoas do bairro que entregam o óleo já utilizado para o casal. E a quantidade, que seria despejada no meio ambiente, não é pouca: apenas uma lanchonete do bairro chega a gastar 60 litros de óleo por dia. “Seu” Luiz conta que antes de existir o trabalho de reciclagem do óleo no bairro a situação era bastante complicada: “As pessoas jogavam tudo pela pia e as lanchonetes, que usam em maior quantidade, acabavam jogando em terrenos baldios. E isso era péssimo. Além de estragar o meio ambiente, atraía animais, como ratos.”

O processo de transformação do óleo em sabão é bem simples. Primeiro, ele é coado, para retirar os resíduos. Depois são acrescentados detergente, soda cáustica e água fervendo. O resultado é um líquido cremoso, marrom claro. No dia seguinte, o material já está duro e a cor é branca. O sabão é cortado e, depois de quinze dias, pode ser usado. Este tempo é fundamental por causa da química da soda cáustica, produto altamente corrosivo que pode produzir queimaduras, cicatrizes e cegueira devido à sua elevada reatividade. Mas, passados os quinze dias, o sabão já não oferece nenhum risco à saúde. E dona Vera Lúcia garante que o produto é de ótima qualidade. “Todo mundo do bairro procura pelo sabão. A roupa fica braquinha em pouco tempo e ainda por cima com cheiro bom!”

“Seu” Luiz mostra o resultado final: um sabão famoso em todo o bairro

“Seu” Luiz destaca que o trabalho é feito com muita dedicação e cuidado, e lembra, também, que se todos ajudassem seria possível evitar a poluição e melhorar as condições do meio ambiente. “Sei que muita gente não liga e não faz a sua parte. Mas eu acredito que a gente deve servir de exemplo. Com esse nosso trabalho, garantimos um dinheirinho para a igreja ajudar a comunidade e ainda evitamos que o óleo vá poluir ainda mais a nossa cidade.”

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Cotidiano

Uma resposta para “Reaproveitamento do óleo: uma saída ecológica

  1. Fabiana Mendes

    As pessoas precisam se conscientizar da importância de preservar o meio ambiente e da necessidade de descartar corretamente os resíduos, como o óleo de cozinha. O trabalho realizado pela empresa Bio Renove é sério e de grande importância para a cidade de Juiz de Fora. É uma empresa licenciada e certificada pela AGENDA-JF/COMDEMA. No entanto, presenciamos atuação de “entidades” que se dizem ligadas ao meio ambiente e que recolhem óleos e gorduras residuais (OGR) em estabelecimentos na cidade objetivando apenas lucratividade. Vendem esse óleo para pequenos produtores de ração animal, por exemplo, sem passar pelo processo adequado de pré-depuração, colocando em risco os animais, criados com a ração proveniente da utilização desse óleo, e a população que consome a carne desses animais. Porque isso acontece? Em fev/2008 foi publicada a LEI 11519 que regulariza a situação de descarte dos OGR em Juiz de Fora. Porém, essa LEI, até o momento, não está vigorando já que não existe fiscalização para garantir que apenas as empresas licenciadas trabalhem respeitando o meio ambiente e a sociedade. Necessitamos da atuação da Prefeitura de Juiz de Fora para vigorar esta LEI, para que as pessoas que descartem os OGR inadequadamente sejam punidas, assim como, as “organizações” que se intitulam ligadas ao meio ambiente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s