Os sons virtuais

Por Lucilia Bortone e Thiago Menini

As artes sempre estiveram ligadas às tecnologias. Desde a Segunda Revolução Industrial, com o surgimento dos primeiros aparelhos eletrônicos, essa relação se consolidou. Os recursos alteraram a linguagem, a estética e a própria ordem da arte em si. Primeiro foram os microfones que surgiram como componente indispensável para a existência dos telefones no final do século XIX. Depois, já no século XX, em meados dos anos 20 foram os alto-falantes. Na década de 30, Les Paul, criou a primeira guitarra elétrica e Laurens Hammond o órgão elétrico Hammond.

Esses instrumentos passaram a incorporar e a desenvolver novas linguagens, por exemplo, para o Jazz e o Blues. Nos anos 60 foi a vez dos sintetizadores que passaram a integrar o repertório de sons de conjuntos famosos como Emerson Lake e Palmer e Pink Floyd. Os famosos Moogs despertaram a idéia de uma música mais virtual, já que a síntese sonora proporcionou o poder dos músicos criarem sons que antes não eram encontrados na natureza.

Entretanto, a mais nova integração entre tecnologia e música acontece no campo da computação. Desde a década de 60 com os primeiros sintetizadores, os instrumentos passaram a integrar ao conceito do uso de programação e softwares dentro de um instrumento musical. Hoje a tecnologia musical permite criar músicas sem a necessidade de ser gravada por vários músicos assim como também afinar a voz de um cantor. Para o professor de teoria musical da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Daniel Quaranta, “o conceito de tecnologia existe desde que existe música. Pensar a tecnologia é pensar de maneira ampla”.

Estes efeitos e instrumentos conhecidos como VSTs (Virtual Studio Technology) e os VSTis (Virtual Studio Instrument Technology) alteraram a forma de se produzir música. Se há alguns anos era difícil ter um homestudio, hoje é possível ter uma orquestra em casa e até criar trilhas sonoras para filmes.

Tecnologia faz bem?

Dentro do meio musical ainda há muita resistência por parte de alguns músicos com relação ao uso das novas tecnologias, principalmente nos casos onde substituem o trabalho de vários músicos.

Para o professor de flauta transversa e coordenador do curso de Música da UFJF, Bruno Coimbra, compartilha da opinião de que a tecnologia em música deve ajudar os músicos e não eliminar a sua necessidade. “Gosto das tecnologias que auxiliam o meu trabalho e não das que o anulam, provocando problemas no mercado de trabalho”. Bruno ainda complementa, que “você pode pegar uma gravação com flauta e quando vê não foi um flautista que gravou”. (Veja no YouTube).

Para o músico e baixista da banda DeLorean, Pedro Brício, o uso das tecnologias é positivo quando vem para somar ao trabalho. “A tecnologia já está presente nas músicas há tantos anos, que não acho que o futuro da música esteja apenas na tecnologia. Ela vem pra somar, auxiliar. Mas substituir, nunca”. Pedro acredita que a música não deve ficar dependente da tecnologia. “A tecnologia não pode virar o foco principal, senão acaba ficando muito artificial. Existem muitos instrumentos virtuais de altíssima qualidade, mas mesmo assim, uma boa bateria bem gravada ou um piano de calda bem gravados, por exemplo, continuam sendo melhores se forem gravados de verdade”.

O baixista da DeLorean apóia o uso moderado de programas que imitam o som de instrumentos em casos específicos como o de bandas que estão no início de carreira e não possuem recursos financeiros para bancar as horas em estúdio e músicos. “Os afinadores de voz são sempre bem vindos, mas com moderação. Na DeLorean usamos alguns instrumentos virtuais, mas apenas para simular instrumentos reais. Esse negócio de sintetizadores, que estão na moda entre algumas bandas brasileiras, não é a nossa praia. Essa onda já passou”, disse.

O professor de teoria musical da UFJF, Daniel Quaranta, possui uma opinião parecida. Ele diz que “a tecnologia só vem a contribuir, esse pensamento que a tecnologia substituirá o músico é um pensamento próximo daquele em que o piano substituiria o cravo, mas o que aconteceu é que peças foram produzidas para instrumentos diferentes”. Daniel completa, “que se eu não consigo pagar um oboísta, pois o cachê seria alto, e se eu sei usar a tecnologia, ela só vem a facilitar a minha criação”. (Ouça).

Parte 2 – Qual você prefere, original ou VSTi?

Parte 3 – O novo lugar do músico

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