Caminhos do Povo de Aruanda

Luiz Felipe Ferreira Stevanim

O ano de 2008 representa um nó de acontecimentos relevantes para a cultura afro-brasileira. Cento e vinte anos após a abolição da escravatura, a Umbanda comemora o centenário de sua fundação. O primeiro centro de que se tem registro foi fundado em 1908, em Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Consagrado a Oxossi, segundo a tradição o santo protetor das matas, o terreiro era presidido pelo médium Zélio Fernandino de Moraes. No dia 23 de abril, quando os devotos de São Jorge dirigem orações ao santo guerreiro, os praticantes das religiões de origem africana batem tambor para Ogum, talvez o orixá mais popular no Brasil depois de Iemanjá. Já no dia 13 de maio, data em que se decretou o fim da escravidão no país, os umbandistas festejam uma das entidades mais conhecidas de sua religião, os Preto-Velhos, que segundo a crença são espíritos de escravos mortos que descem no terreiro para aconselhar e fumar seu pito. Nessa reportagem, Luiz Felipe Stevanim traz um relato dos fundamentos filosóficos e das práticas ritualísticas dessa que reivindica para si o posto de primeira e única religião genuinamente brasileira.

I – Quando Ogum Iara vem de Aruanda para salvar filhos de Umbanda

Os trabalhos começam com o estudo do Evangelho Segundo o Espiritismo, escrito há 150 anos e base da doutrina kardecista, em uma roda em que todos falam. Dali a pouco, os atabaques vão soar nas mãos de João Carlos, filho-de-santo há mais de trinta anos e irmão da mentora do terreiro, Janete Baiseredo. A festa é de Ogum, São Jorge para os católicos, orixá do fogo e do ferro, invocado em situações de dificuldade porque está associado a batalhas e superação. “Ogum é guerreiro. No imaginário da Umbanda, ele abre os caminhos para seu povo”, explica Janete, mentora de um terreiro que existe desde 1980, no bairro de Vista Alegre, zona norte do Rio de Janeiro. Na batida dos atabaques, os quinze fiéis, todos vestidos de branco, cantam o ponto de incorporação do orixá principal:

“Se meu pai é Ogum,

vencedor de demanda,

Ele vem de Aruanda

Pra salvar filhos de Umbanda.”

Agora já não é tia Janinha quem fala e sim Ogum das Sete Cruzes da Falange de Ogum Iara Vence Demanda. Ele diz que não tem hora para terminar, porque terão muito trabalho pela frente. O guia abraça seus filhos um a um e anuncia que vai chamar os espíritos que incorporam nos demais médiuns. O segundo a chegar de Aruanda, a terra lendária dos santos de acordo com a tradição, é um outro Ogum, da Falange de Beira-Mar. Quem o recebe é João Carlos, depois de entregar os atabaques para outro tocador e girar no centro do terreiro com um brado e um balanço de mãos.

Os rituais da Umbanda possuem sete linhas de trabalho, cada uma delas relacionada a um orixá africano. Cada linha divide-se em outras sete, as falanges, da qual fazem parte na linha de Ogum, por exemplo, Iara e Beira-mar. Diferentemente do Candomblé, os praticantes da Umbanda acreditam que a incorporação não é do orixá de fato e sim de espíritos que trabalham com os elementos da linha do orixá regente, chamados geralmente de caboclos, preto-velhos ou crianças. As caboclas de Yemanjá, responsável pelos mares, utilizam as características da água salgada em seus trabalhos e o movimento do médium na dança imita um nado de sereia. Assim é com Xangô, Ogum, Oxossi, Oxalá, Yori (linha das crianças) e Yorimá (linha das almas, regida pelo orixá Obaluaiê, do qual emanam os Preto-Velhos).

O momento no terreiro de tia Janinha é de renovação, porque acontece o batizado de seus dois netos, Rafael, 5 anos, e Lara, 3. Quem coordena o ritual é Ogum Iara. O guia chefe pede à cabocla de Oxum, incorporada na médium Rosângela Rocha, que prepare um banho de flores. Oxum é a orixá das águas doces e sua dança, durante a incorporação, lembra um banho de cachoeira. Cada guia vem trazer um dom para as duas crianças batizadas: Xangô, que deixa o médium firme como se fosse um rei, traz a justiça; Oxossi, a paciência e a sutileza de um índio; os Preto-velhos, a sabedoria; a Ibejada (espíritos de crianças), a alegria; Iemanjá, a beleza; Oxum, o amor; Iansã, a firmeza e a impetuosidade. No fim, para animar a festa, os participantes se assustam com os gritos de “Ê boi, ê boi”: como não acontecia há vinte anos no terreiro de tia Janinha, uma médium recebeu um caboclo Boiadeiro, que segundo a tradição conduz as almas do outro mundo para um caminho de luz.

II – O nascimento da Umbanda

Em 1904, quando o escritor João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, membro emérito da Academia Brasileira de Letras, percorreu todos os locais religiosos do Rio de Janeiro para escrever um livro, ele sequer mencionou o nome da Umbanda. Casas de bruxaria, igrejas, templos, sinagogas, macumbas, todos entraram no levantamento que saiu com o título “Religiões do Rio”.

O primeiro terreiro de Umbanda de que se tem registro nasceu pelas mãos de Zélio Fernandino de Moraes, em 1908, quando ele tinha 17 anos. O rapaz foi levado a um centro espírita kardecista em Niterói, após ter um ataque daquilo que pareceu ser uma crise de histeria. Durante a sessão espírita, que estava se difundindo no Brasil pelas mãos da classe média e dos imigrantes europeus, Zélio entrou em transe e falava como um índio que se deu o nome de Sete Encruzilhadas, da linha do orixá africano Oxossi.

Os responsáveis pelo centro expulsaram o rapaz, segundo se conta porque somente espíritos de homens brancos, considerados naquela época pelos kardecistas como mais elevados, podiam se manifestar em uma sessão. O caboclo Sete Encruzilhadas teria dito através de Zélio que no dia seguinte criaria um culto novo, no qual espíritos de todos os povos seriam aceitos. Foi um dia 15 de novembro, data do aniversário de proclamação da República. Nascia o que em 1941 passaria a se chamar Umbanda, após um congresso que reuniu seus praticantes no Rio de Janeiro.

Para a pesquisadora Sônia Regina Lages, o surgimento da Umbanda tem relação com a urbanização brasileira. “O culto passou a ser procurado não só por negros, mas por todos os extratos sociais desfavorecidos, como os mulatos, as mulheres, as crianças pobres, os operários da construção civil, as prostitutas, os desempregados, como uma forma de recorrer ao ‘além’ diante das dificuldades”. Sônia estudou os rituais umbandistas tanto em seu mestrado em Ciências da Religião na UFJF quanto em seu doutorado em Psicossociologia pela UFRJ.

O interesse científico de Sônia pela Umbanda veio do fato de que poucos estudiosos se detêm em analisar a complexidade dessa religião. Um dos pontos levantados por ela é  a construção psicológica que o médium realiza a partir da entidade que recebe, geralmente no caso dos Exus, espíritos muito temidos e respeitos pelos seguidores. Segundo Sônia, que é católica, mas se considera ecumênica, o que diferencia essa religião das demais é a aceitação de que o bem e o mal existem dentro de cada indivíduo. “A Umbanda produz em seus praticantes uma aceitação maior de si mesmo, uma compaixão pelos outros, a partir da crença de que as relações entre os indivíduos se baseiam nas escolhas que ele fizer”, argumenta.

III – A história de tia Janinha, a missão de Ogum Iara

Janete Baiseredo, 53, começou a freqüentar terreiros de Umbanda levada pela avó materna. No início, como toda criança, gostava das festas em outubro para São Cosme e Damião, chamados de Ibejis ou Erês nos cultos africanos. Como criança foi escolhida para cambono, uma espécie de auxiliar que acompanha o médium durante o transe. Segundo ela, o que a movia era simplesmente a vaidade em servir o chefe do terreiro.

As coisas mudaram aos 17 anos, quando deixou o centro regido pelo caboclo Pena Verde, de Oxossi, para se casar. Na última festa, que era uma saudação à orixá Oxum em uma cachoeira, Janinha diz ter recebido Ogum Iara pela primeira vez. “Ogum logo disse que tinha uma missão importante para realizar na terra como chefe de terreiro”, relembra, ela que diz nunca ter percebido nenhuma mediunidade até então, além das visões que segundo ela a acompanham desde criança. Ogum teria lhe dado um prazo de três anos e foi justamente o tempo que ficou casada com o primeiro marido. “Três anos depois, Ogum voltou para dizer que precisava de mim”. Desde então, ela assumiu o que considera uma missão.

Mas não foi na Umbanda tradicional que Janinha exerceu os primeiros anos de médium e sim no que os praticantes chamam de Umbanda Traçada, uma mistura com o Candomblé, no tradicional terreiro “Trabalhadores Humildes”, bairro de Ramos, zona norte carioca. Nas palavras de Sônia Lages, um dos principais preconceitos que o culto umbandista sofre é dentro das próprias religiões africanas, quando considerada uma prática que não conserva a “pureza da África”. Foi no terreiro traçado que tia Janinha conheceu sua irmã de culto e amiga de trinta anos, Rosângela Rocha. Até que Ogum Iara disse que não queria mais trabalhar em um terreiro em se cobrasse pelas consultas. Em 1980, eles fundariam a casa regida por Ogum das Sete Cruzes, em Vista Alegre.

Na tradição africana, Ogum é o orixá que abre os caminhos, equivalente no sincretismo à figura de São Jorge. Segundo a lenda, foi ele que cunhou as armas para proteger os outros orixás, através de seus dois elementos, o fogo e o ferro. Em muitos anos de trabalho, tia Janinha aprendeu que o ditado “Deus escreve certo por linhas tortas” é mesmo verdadeiro. “Ogum Iara nos ensinou que as dificuldades são necessárias. Não adianta você pedir a Deus um prato de comida, se é mais importante você não comer para não passar mal”, fala com a voz mansa.

IV – Um religião de preto?

Apesar de a Umbanda ter surgido só no século 20, os cultos africanos foram praticados desde a chegada dos escravos no Brasil. E mais: foram eles que conservaram a cultura africana, submetida à dominação do colonizador português. Essa é a opinião de José Geraldo Azarias (Zaca), coordenador do Centro de Referência da Cultura Negra (Cerne), grupo militante do movimento negro em Juiz de Fora. Segundo Zaca, ao associar cada orixá a um santo católico, os negros foram espertos o suficiente para usar a cultura dominante sem sacrificar a sua. “Se o Brasil possui uma cultura negra hoje, isso se deve à religiosidade”, afirma.

A originalidade dos rituais africanos pode se ver ameaçada pelo interesse turístico que leva muitas pessoas até os terreiros de macumba, nome geral que o culto recebe. É a opinião da pesquisadora Sônia Lages, para quem a perda da identidade é reflexo da sociedade do espetáculo. “Estive em um terreiro de Candomblé da nação Gêge em Salvador e o que vi foi um verdadeiro show, um teatro, oferecido para os turistas estrangeiros”, aponta. O militante Zaca defende a posição dos terreiros, pois para ele os fundamentos da doutrina não são apresentados aos turistas e sim guardados para os dias de trabalho sério.

Proibidas na época colonial, as macumbas continuaram a sofrer perseguições da polícia após a proclamação da República. As Leis da Vadiagem e da Capoeiragem(1890) associaram o rótulo de vagabundos aos indivíduos praticantes de rituais de origem africana. E como tais, mereciam a cadeia em nome da ordem pública. A situação começou a mudar somente a partir de 1930. Segundo o Cerne, o número de terreiros em Juiz de Fora decaiu de cerca de 1200 no início do século passado para 300 atualmente. Um dos responsáveis pela diminuição é o avanço da urbanização, principalmente com os condomínios fechados, que têm destruído ou segregado os lugares sagrados para os umbandistas, como pedreiras, matas e cachoeiras. “Sem a natureza não existe Umbanda”, lembra Azarias, que também é filho-de-santo no terreiro da Yalorixá Geralda de Iansã, no bairro de Lourdes em Juiz de Fora.

Sua origem entre o segmento mais pobre da população não impediu que a Umbanda chegasse até a classe média. Assim foi com a paulistana Neiva Zibordi Pelegrini, filha de italianos e moradora de Juiz de Fora há 15 anos. De formação espírita kardecista, Neiva freqüenta um centro de Umbanda há três anos na cidade de Santos Dumont. O terreiro da linha de Oxossi trabalha com caboclos e preto-velhos. Os rituais acontecem nas segundas e sextas-feiras, em uma freqüência que gira entre 40 e 70 pessoas.

Religião de todos: Neiva Pelegrini é filha-de-santo há três anos

Neiva explica que a Umbanda e o Kardecismo são duas faces de uma mesma moeda. “A diferença é que o Kardecismo envolve estudo, enquanto a Umbanda é prática”. Para Janete Baiseredo, o fundamento da Umbanda é o trabalho com a natureza. “Assim como o Candomblé e mesmo o Catolicismo, trata-se de uma prática espiritual, porque lida com coisas que não são táteis”, completa.

V – Silêncio dos atabaques

Chega a hora final. Já passam das dez da noite, as atividades começaram às quatro daquele sábado, 27 de abril. Ogum Iara conversou com aqueles que desejaram, um rosto de cansaço em toda a assistência. Mais cedo, quando disse que aquele seria um dia de muito trabalho, o guia não estava brincando. A médium Janinha, incorporada com o espírito principal do terreiro, aproxima-se do altar e despede-se de um público emocionado. As vozes cantam, já sem o atabaque:

“Seu Ordenança já mandou dizer:

seu cavalo está pronto para viajar.”

Ogum Iara voltou para Aruanda. Tia Janinha sai do transe e sorri para os demais, apesar do cansaço. Dali há quinze dias, terão nova sessão, porém a festa principal do terreiro somente depois de um ano.

A noite está fresca. A lua minguante divide espaço no céu com estrelas e balões.

 

3 Respostas para “Caminhos do Povo de Aruanda

  1. Iluska Coutinho

    Excelente texto e apuração. Estrutura narrativa diferenciada traz o usuário para dentro da matéria, e de seu ambiente. Parabéns.

  2. Gostei do testo, muito ilucidativo…

  3. Renata

    Oi!
    Mudei há pouco para JF e estou a procura de terreiros para trabalhar. Estou tendo muita dificuldade para encontrar, alguem pode me ajudar?

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