Folia o ano inteiro

“Atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu…”

Fabricio Ferrarez

05/05/2008

Já ouviu falar de Vital, Fortal e Carnatal? Se esses nomes não fazem o menor sentido, certamente não faz parte do grupo dos micareteiros. As micaretas são “carnavais fora de época”. Esse nome vem de uma festa francesa chamada de Mi-carême, que significa “meio da quaresma”, realizada durante os quarenta dias de penitência. No Brasil, a primeira Mi-carême foi feita em Jacobina no interior baiano e sua introdução como festa urbana se deu na cidade de Feira de Santana, onde em 1935, através de um plebiscito do Jornal A Tarde, houve a mudança de nome para micareta. O nome ficou conhecido não só na Bahia, mas como em todo país como um “segundo carnaval”. Hoje existem as micaretas abertas, feitas nas ruas das cidades, e as chamadas in door, feitas em locais fechados com cobrança de convite.

Por cima do trio

Animada, bonita e eclética, essa é Alinne Rosa, vocalista da Banda Cheiro de Amor. A cantora, que carrega os vocais desde 2004, fez um agitado show recentemente em Juiz de Fora no Carnadministrando. A vocalista, de uma banda com 29 anos de estrada, comenta que o carnaval é o oficial mas que o clima e a energia são praticamente os mesmos. “Todos os meus shows são especiais, mas o carnaval é onde todo mundo se encontra literalmente. São milhões de pessoas, é uma data especial para o artista baiano, mas existem micaretas muito especiais também”.

A cantora fala com conhecimento de causa, afinal são aproximadamente 12 micaretas realizadas todos os meses e diz que coloca em seu repertório tudo o que o público gosta de ouvir. “A música baiana se tornou um ritmo não só da Bahia, mas brasileiro. Venceu preconceito e ainda está vencendo. E com o tempo a gente vai integrando outros ritmos e outros artistas. Nossa música não é preconceituosa, a gente está sempre de braços abertos para receber qualquer ritmo, seja rock, pop, axé ou sertanejo”. Essa mistura de ritmos que antigamente se encontrava só no carnaval de Salvador, onde já se apresentaram DJ’s famosos como Fatboy Slim e Tiesto também se encontra nas principais festas de todo o país. Na micareta de Natal, por exemplo, a banda Aviões do Forró possui um bloco fixo.

Sobre os micareteiros, Alinne observa que é um público jovem, bonito, universitário, e que está a fim, acima de tudo, de se divertir. E, sem titubear, confirma que a festa é uma ótima forma de divulgação “É uma das melhores formas. Fazendo um bom show e uma boa micareta, vai de boca a boca e o sucesso por aí vai.”

Atrás do Trio

Iveteiros, chicleteiros, asamaníacos, não importa o nome. O fato é que o sucesso das micaretas e dos cantores é tão grande que se criam verdadeiras legiões de fãs das bandas. Isabel Fraga, a Bel, é uma delas. Fã do Asa de Águia de carteirinha, ela confessa que não perde um show da banda. Seu amor por eles começou em 2004. “Foi quando fui ao primeiro show do Asa. Antes disso ouvia muito raramente e não freqüentava os shows, pois eu tive síndrome do pânico, então qualquer tipo de aglomeração eu passava longe. De lá pra cá não parei mais.”

Pelas suas contas, desde final de 2004 até hoje, ela já foi em 27 shows. Seu histórico inclui apresentações no estado do Rio, Sergipe, Pernambuco, São Paulo, Minas Gerais, Ceará e Bahia. Além disso tudo, ela comenta estar de olho nas próximas Trivelas, festa criada pelo Asa de Águia. “Minha extravagância começou mesmo em 2007, que não fiquei mais de dois meses sem ver o Asa. Até na gravação do programa Estação Globo, da Ivete, eu fui. Fiquei de 11h40 até 17h30 esperando a gravação começar, pra ver 15 minutos de apresentação e sair correndo do estúdio para tirar umas ‘fotinhas’. Preciso nem dizer que aqui em casa ninguém agüenta mais ouvir falar em Asa de Águia, né?”

As extravagâncias não param por aí. Para homenagear a banda, Bel fez três tatuagens. Ela conta que sempre teve vontade, mas ficava na dúvida em que parte do corpo tatuar e no desenho. “Fiz a primeira em dezembro de 2006, um solzinho do Cocobambu, bloco de carnaval, no pulso esquerdo. Mas depois cismei de tatuar uma coisa mais profunda, que representasse a banda, mas que, ao mesmo tempo, falasse a respeito de mim, de situações que vivo e já vivi. Foi então que eu tatuei uma frase de uma música. A escolha foi bem difícil, fiquei na dúvida entre três trechos de músicas diferentes e que transmitiam coisas bem distintas. Em maio de 2007 fiz nas costas ‘vida é viver, vida é sonhar’. A frase diz muita coisa pra mim. E tenho notado que muitas pessoas gostam. A última fiz esse ano: a logo da Trivela, também no pulso esquerdo, do lado do solzinho”.

Mas ser fã tem seu custo. “Os abadás variam de preço de acordo com o evento, o lugar e o lote. Já paguei de R$ 30 até R$ 1600 em abadás. Mas a maioria está na faixa de R$ 60 à R$ 150. Fora a despesa com as passagens, as excursões, hotéis, bebidas em shows, comprinhas no site, etc. Sem contar que mulher sempre leva a camisa para reformar na costureira”.

O preço vale a pena. Nessas viagens e em conversas na internet, Bel já fez muitos amigos, também seguidores da banda. Atrás dos shows, ela raramente vai sozinha, sempre com pessoas de sua cidade ou encontra fãs de outros estados nos eventos.

“Uma cena que nunca vou esquecer é a galera do asachat no orkut que se encontrou na Trivela de Recife em 2007. Lá fizemos uma campanha pra tocar Alimente, uma música que Durval já tinha abandonado. Foram levadas cem plaquinhas impressas, também levamos a letra cifrada pra ser entregue ao Durval. A Trivela rolando, até que ele olha para o público e começa a contar as plaquinhas e então soa os primeiros acordes da música. A galera insana, chorando, pulando, gritando, se abraçando. Foi lindo! Não só pelo show fantástico, mas pelas pessoas que estavam presentes. Todo mundo atrás da mesma paixão e que acabou criando um laço de amizade muito grande”. Bel prova que ser micareteiro é mais do que uma diversão em busca de beijos. Para alguns, ser micareteiro é praticamente uma religião.

Muito além do abadá

Como disse a fã do Asa de Águia, as meninas sempre levam suas camisas nas costureiras para dar uma diferenciada. Para a jornalista de moda Débora Lélis as garotas querem conferir um estilo próprio para a roupa. “Nenhuma mulher gosta de sair e se ver vestida igual à outra. Por isso a “necessidade” de fugir do uniforme e deixar sua blusa com uma cara diferente”. Uma dica para a chamada customização do abadá é de buscar respeitar o estilo de vestir e a fisionomia. “Valorizar os pontos fortes e não deixar tão à mostra algo que incomode. Há várias formas de deixar a roupa mais sensual, seja fazendo um decote no colo, nas costas, ou deixando a barriga de fora. Se a menina não está satisfeita com o colo, mas acha suas costas atraente, faça uma frente única. Caso ela tenha uma barriga saradinha, encurte o comprimento da blusa, mas não abuse nos outros recortes, ou correrá o risco de ficar vulgar. Ela poderá usar um abadá com a barriga de fora e trabalhar a alça, por exemplo, com fitinhas entrelaçadas. Ou colocar brilho da mesma cor da logo na estampa, recortar as laterais da blusa e fazer amarrações de diversos tipos”, fala Débora.

Para se usar com a camisa, a jornalista recomenda algo confortável: “Os abadás costumam ser feitos com o dry fit, tecido muito usado para cooper e atividades aeróbicas. A opção, no caso, é usar um short ou bermuda – que deixam os movimentos mais livres, e tênis, que absorvem melhor o impacto e não cansam tanto os pés e as pernas.” Para ela, o maior mico de se usar em uma micareta é o salto alto. “As botas também são vistas, mas são características de rave. Embora sejam confortáveis, fogem do estilo e as piadinhas certamente irão aparecer. Além disso, as botas dificultam a transpiração e o amortecimento. Também não aconselho o uso de mini-saias, pois a folia e a aglomeração é tanta, que pode acontecer algum episódio em que haja falta de respeito e constrangimento”, finaliza.

O dinheiro no compasso do axé

Nem só de carnaval vive o bolso dos grandes empresários do axé. As micaretas e festas duram o ano inteiro e garantem lucros de cachês que podem chegar até a R$ 500 mil. Os principais nomes da folia chegam a lucrar por ano mais de R$ 40 milhões. Suas empresas que antes serviam apenas de agenciamento de artistas estão virando holdings. Um caso ilustrativo é o da cantora Ivete Sangalo. Em entrevista para o jornal Correio da Bahia, Ricardo Martins, vice-presidente da empresa que agencia a cantora, fala que o ritmo de trabalho é intenso todo ano por causa do grande número de micaretas e afirma que o carnaval é responsável apenas por 20% do faturamento da empresa, os outros 80% são relativos aos shows de Ivete e aos ganhos com outras empresas.

Com todo esse dinheiro circulando através das micaretas no Brasil, Juiz de Fora resolveu abocanhar parte do mercado. A cidade conta com duas micaretas in door: o Carnadministrando, em abril, e o Jffolia, em outubro. A assessora responsável pelo Jffolia, Cecília Delgado, diz que neste ano a festa chega à sua sétima edição. “O axé é um ritmo muito popular no país inteiro e Juiz de Fora não é diferente. Além disso, uma cidade do porte da nossa merece ter o próprio evento, com a vinda dos maiores nomes do estilo”.

O presidente do Juiz de Fora e Região Convention & Visitors Bureau, Marco Antônio Menezes, diz: “Ao traçarmos um panorama geral sobre o setor em Juiz de Fora, observamos que além dos eventos técnico-científicos, aqueles ligados ao entretenimento são característicos da cidade. Entre as várias festas e eventos deste segmento, as micaretas merecem destaque, pois atraem um número crescente de turistas de várias regiões do país. Juiz de Fora é referência em educação na região, temos a terceira melhor universidade pública do Brasil e mais outras dez instituições de ensino, que contam com diversos cursos de graduação e pós-graduação. Em geral, os estudantes são a maioria do público presente nas micaretas.”

Esse tipo de evento não traz benefícios somente para os empresários. Cecília afirma que são gerados cerca de 1500 empregos temporários. “O evento estimula a criação de empregos diretos e indiretos, além do incremento de renda para diversos setores da economia, desde o flanelinha informal até táxis, bares e restaurantes. Dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) também indicam um aumento, em média, de 25% no faturamento de bares e restaurantes da cidade”. Marco complementa: “Segundo pesquisa realizada, a taxa de ocupação dos hotéis fica em torno de 85%, considerando que alguns estabelecimentos chegam a 100% de ocupação no período de realização do Jffolia.”

Para você que quer se programar para a próxima micareta, confira o calendário dos eventos pelo país.

Quer saber um pouco sobre os termos usados no evento? Clique aqui e veja o dicionário das micaretas.

E vem novidade por aí…

Anúncios

3 Respostas para “Folia o ano inteiro

  1. karen

    amei a entrevista está de parabéns!
    muito bem elaborada!
    adoreiiiiiiii!

  2. Iluska Coutinho

    Boa matéria, com abordagem de diversos enfoques, do econômico ao cultural. Bons links. Cuidado com os adjetivos, como ao apresentar a vocalista da banda Cheiro de Amor.

  3. gabi

    bom amei a entrevista pois queria ver + fotos. sei lá talves modelos de abadas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s