Imigração Japonesa: três famílias, três histórias

por Gustavo Dore
25/06/2008

“Porque tantas outras nações fazem anos de imigração para o Brasil, e estamos comemorando tanto a imigração japonesa?”, me perguntou o senhor Kikuchi. A resposta estava enraizada na cultura japonesa, no esforço da mão de obra nas lavouras, e na forma como o povo japonês tratou o nosso país até agora. E isso fomos descobrindo a partir do contato com japoneses e descendentes, que ainda se encontram em Juiz de Fora.

Foram 100 anos da primeira imigração, e 113, desde que foi assinado o primeiro tratado de amizade entre os dois países. Ainda não se sabe exatamente a data em que a primeira família de japoneses chegaram em Juiz de Fora, mas estima-se que tenha sido no fim da década de 40, para trabalhar nas lavouras de tomate da região. Os descendentes que por aqui ficaram hoje são muitos e estão espalhados por toda a cidade. Alguns deles ainda tentam voltar para ganhar a vida no Japão, como o fotógrafo Kenji Dan e a empresária Sisuka Oka. Porém, por motivos como amor ao Brasil e saudades da familia, acabam voltando. Cada família tem sua história particular de como chegaram a Juiz de Fora, e essas histórias se misturam com a história da cidade e do crecimento do nosso país.Kikushi san

O senhor Kikuchi, sobrevivente dos bombardeios ao Japão durante a 2ª guerra, veio para Juiz de Fora em 1990 abrir uma joalheiria. Kikuchi chega em São Paulo em 1960, com 24 anos, para trabalhar no Banco América do Sul, que hoje faz parte do conglomerado Sudameris. O Banco América do Sul tinha como foco os agricultores e Kikuchi acaba indo trabalhar na Cooperativa Agrícola. Kikuchi relembra com orgulho que, entre muitas de suas andanças pelo país para dar consultoria a agricultores, talvez a de maior relevância tenha sido quando escolheu trazer a papaia vermelha do Japão para o Brasil. Ele imagina que quando cada brasileiro come uma papaia vermelha, foi por sua causa. (saiba mais sobre essa história clicando aqui). Em 1990, depois de sua aposentadoria, veio com sua esposa e filhos abrir uma loja em Juiz de Fora, recomendado por seu cunhado, que já era empresário aqui.

Kyuzo OKAUm outro exemplo de família japonesa em Juiz de Fora é a família Oka. Kyuzo Oka chega a São Paulo em 1923, com 17 anos. Depois de anos como carpinteiro, vem para a região de Juiz de Fora se tornar agricultor. Em 1951, casa-se com Maria, 30 anos mais jovem, que trabalhava em sua lavoura. Com o nascimento de Eika, a filha mais velha, começa uma nova geração de descendentes que até hoje se encontram em Juiz de Fora. No começo dos anos 90, o governo japonês implanta medidas que facilitam a entrada de descendentes no Japão. Sisuka, uma filhas de Kyuzo e Maria, foi com sua família para a cidade de Toyota, trabalhar nas fábricas. Em 2001, após 10 anos, Sisuka volta ao Brasil para ficar com a família. “Os brasileiros são muito apegados à família. Ficam trabalhando lá, mas sempre pensando em voltar”. Sisuka comenta que os brasileiros acabam não aproveitando os benefícios que o Japão oferece, como sistema de ensino de qualidade. (veja aqui um pedaço da entrevista com a família Oka)

Esse é também o caso de Kenji Dan. Seu pai veio para o Brasil com o sonho de trabalhar com agricultura. Após mudar algumas vezes de cidade, Harumi Dan, pai de Kenji, se fixou em Leopoldina. E assim Kenji vem para Juiz de Fora estudar. Em 1993, com 23 anos, Kenji vai para o Japão trabalhar. Assim como Sisuka, após 10 anos ele volta para Juiz de Fora. Kenji conta que como trabalhava só pensando em juntar dinheiro para voltar, não conseguia se divertir no Japão sem se sentir culpado. “Era uma vida sobre pressão”, explica. Hoje Kenji é casado e tem um filho de um ano, porém, às vezes, se pega pensando sobre voltar para o Japão, “A minha família está toda no Japão. Apenas eu e os meus 2 irmãos ainda estamos aqui.” Veja algumas fotos da história de Kenji clicando aqui.
Segundo a família Oka, até os anos 70, no fim da época das lavouras,  os encontros de japoneses ainda eram frequentes, principalmente em Carandaí. O último grande encontro que se lembram foi em Barbacena, em 1988, na comemoração dos 80 anos da imigração. Atualmente, a maior parte dessas famílias não se conhecem. Para promover esse encontro está sendo organizado o “1º encontro da comunidade Japonesa de Juiz de Fora”, que pretende criar uma associação nipo-brasileira na região.

Hoje, os japoneses não são influentes no comércio da cidade, perdendo espaço para os coreanos e chineses. A comunidade não é organizada e as características fisicas e os hábitos vão aos poucos de dissipando. Porém, devido a uma forte influência, nos últimos anos, do chamado “Japanese Soft Power”, o número de entusiastas da cultura japonesa faz com que os hábitos e costumem sejam mantidos.

Esse ano, em comemoração aos 100 anos de imigração, o governo brasileiro e japonês vêm investindo na promoção de relacionamentos entre os países. Toda essa campanha faz com que os japoneses e descendentes ganhem destaque e se sintam como uma comunidade. “Obrigado brasileiros. É muito significante para os japoneses que não só o presidente Lula, mas todas as autoridades brasileiras celebrem lado a lado com o povo japonês esses 100 anos da imigração.” finaliza Kikuchi-Sama*.

*a denominação sama após o nome é um pronome de respeito, utilizado para indicar hierarquia. É uma versão mais polida do sufixo -san, que significa “senhor”.

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Uma resposta para “Imigração Japonesa: três famílias, três histórias

  1. Iluska Coutinho

    Bela matéria, com boas estórias e uso de outras mídias. Como especial contudo senti falta de um suporte especializado, algum historiador talvez ou que tenha pesquisas sobre o tema na área de cultura, por exemplo. Ah…e quanto aos links externos, para ampliar o volume de informações. Foram outra ausência.

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