Avanço dos evangélicos

Igrejas protestantes e pentecostais tem crescimento no número de fiéis

 

A Fundação Getúlio Vargas  (FGV) divulgou nesta quinta-feira, 29/04/08, uma pesquisa que mostra o crescimento do número de evangélicos em todo o Brasil. A pesquisa mostra uma tendência que vem sendo verificada, principalmente na última década. Segundo o coordenador da pesquisa, Marcelo Néri, os resultados de hoje são reflexo da fase econômica ruim que o país atravessou durante a década de 80.

 

Durante estes anos, o panorama social foi propício para o crescimento das instituições religiosas. Para o Cientista Social e Historiador Marcos Piazoli, os anseios da população e o panorama de desesperança que tomou conta do país, foram os responsáveis pelo crescimento, principalmente nas áreas periféricas dos grandes centros.

 

“O fato é que o cenário social foi fundamental para que o número de evangélicos crescesse no país. O povo sentiu a necessidade de acreditar em algo. No momento em que a política, a  economia, e o próprio país não davam conta disso, a religião preencheu este espaço”, diz o cientista social.

 

Para quem conhece pouco sobre as igrejas evangélicas, este é um termo utilizado para definir instituições que se originaram diretamente da reforma religiosa ou se desdobraram das que vieram após e não romperam com os ensinos fundamentais protestantes quanto à salvação da alma. A reforma religiosa caracterizou-se por uma série de tentativas de reorganização da Igreja Católica Romana, o que levou posteriormente ao estabelecimento do Protestantismo.

 

O pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, Alex Fonseca, 24, diz que o trabalho desenvolvido pelas instituições evangélicas é o principal fator agregador de novos fiéis: “Hoje o povo evangélico, por ser um pouco maior, já não tem mais vergonha de falar que é cristã, que é evangélico. Isso divulga mais o trabalho e com certeza as pessoas vão assumindo a fé no cristianismo, e percebendo uma mudança na vida, o que faz com que outras queiram seguir este caminho” , analisa.

 

Ainda hoje, o Brasil continua sendo o maior país católico do mundo. O último censo, realizado em 2000, mostrou que o número de fiéis do catolicismo continua respondendo por cerca de 73,89% da população. Mas o crescimento registrado nos últimos anos mostra que este número tende a diminuir, em conseqüência da expansão das igrejas evangélicas. Segundo as projeções mostradas pela pesquisa, o crescimento das igrejas pentecostais pode fazer com que, em cerca de 40 anos, o país passe a ter a população religiosamente dividida em dois grupos: católicos e evangélicos.

 

Para Marcos Piazoli, estes índices estão relacionados à forma como historicamente cada uma das instituições se comunicam com seus públicos.” A Igreja Católica, com o passar dos anos, tentou se aproximar de seus fiéis, adaptando tanto sua linguagem, quanto sua própria estrutura. Um exemplo é a não utilização do latim nos cultos. Porém, as igrejas evangélicas já nasceram falando a língua do povo.”

 

Outro aspecto levantado pelo cientista social é o trabalho forte desenvolvido pelas evangélicas com comunicação. “Existe uma consciência dentro das instituições evangélicas muito maior com relação à comunicação. Elas possuem veículos de divulgação interna que mantêm o fiel ligado à Igreja 24 horas por dia. Vejamos por exemplo os cultos que algumas emissoras exibem quase que diariamente.”

 

Este aspecto também é colocado pelo pastor Alex Fonseca como um dos diferenciais do trabalho desenvolvido. “A igreja usa muito a propaganda e o jornal. Temos a Folha Universal (veículo de comunicação interna) e usamos muito esse jornal; tem os programas de rádio e os de televisão”. Mas o pastor afirma que, ainda sim, o que mais funciona é o boca a boca feito pelos próprios fiéis. “O que traz maior resultado é o testemunho das pessoas que freqüentam a igreja. Elas comparecem, gostam, e quando a pessoa gosta de uma coisa, ela fala para outras pessoas. Então o maior veículo para chegar às pessoas que não fazem parte da igreja é justamente esse”.

 

Conversões

 

O pastor conta que a maioria dos atuais fiéis da Igreja são provenientes de conversões. Isso está relacionado à predominância da religião católica no país. “A maior parte dos fiéis eram católicos e se converteram, por que até pouco tempo predominava a Igreja Católica; então a maioria dos fiéis hoje da igreja eram católicos, inclusive eu e a minha família”.

 

O cientista social Marcos Piazoli afirma que este fenômeno tem relação direta com a grande diversidade de igrejas que atualmente estão sendo criadas. “Não há como negar que o Brasil é fruto de uma grande diversidade cultural. Então seria impossível crer que apenas uma ou duas instituições religiosas seriam capazes de dar conta de uma população que é múltipla”.

 

O surgimento de novas igrejas, que possuem as mais diversas interpretações da fé, também são analisadas pelo sociólogo: “O cenário que temos é propício para o surgimento de instituições que trabalhem a fé de diferentes maneiras. E é normal que as pessoas transitem entre várias crenças, até encontrarem aquela que consiga explicar certos aspectos da vida”.

 

Outro ponto levantado tanto pelo cientista social quanto pelo pastor é quanto à aceitação, tanto por parte da sociedade, quanto por parte da família. O ambiente doméstico oferece a possibilidade de abertura de diálogos em torno de temas, que até pouco tempo, eram tabus entrem as famílias. “A escola, os meios de comunicação e a própria sociedade fazem com que o indivíduo tenha contato com as mais diferentes esferas sociais. É através deste contato que conhecemos, compartilhamos e trocamos referências culturais. A partir disso, tomamos conhecimento, por exemplo, das religiões. Não precisamos ir a uma missa para conhecer um pouco do catolicismo. Podemos por exemplo entrar na página  da web do vaticano”, diz  Marcos.

 

Os números quando analisados mostram a evolução do número de evangélicos. Em 2000, os evangélicos correspondiam a 16,22% da população, eram 9,59% em 1991 e 6,55% em 1980. 

 

Agnósticos e ateus também crescem.

 

O número de pessoas que se declaram ateus e agnósticos também cresceu. O índice chega a 7,34% da população brasileira, o que corresponde a cerca de 12,5 milhões de brasileiros. Esta é uma tendência que também é verificada no restante do mundo.

 

Para o cientista social, isto é reflexo do momento que a sociedade vive: “ vivemos em um tempo sem fronteiras, principalmente para o conhecimento. É natural que alguns tabus caiam, como a própria falta de diálogo em torno da religião. Outro ponto é que há um movimento natural de diferenciação das pessoas. Cada um quer simplesmente encontrar o que é melhor para si, já que quase tudo que temos hoje é fruto da padronização e massificação proposta pelo modelo econômico vigente.”

 

É importante compreender que as duas definições são diferentes. O agnóstico opõe-se à possibilidade de a razão humana conhecer uma entidade concebida como “Deus”. A palavra gnose tem a sua origem na palavra grega que significa conhecimento.

 

Para os agnósticos, não é possível provar racionalmente a existência de Deus. Porém, é impossível também provar a sua inexistência, logo, constituindo um labirinto sem saída para a questão da existência de Deus. Já o ateísmo vive um paradoxo, uma vez que a definição literal da palavra siginifica crença na ausência de um Deus. 

 

Acreditar em Deus, mas não ter uma religião é possível?

 

A pesquisa não mostra dados sobre um grupo ainda mais específico de pessoas. Aqueles que acreditam em Deus, mas não possuem uma religião definida. Para o jornalista João Paulo Oliveira, é possível ser religioso sem ter uma religião específica, utilizando referências de diversas crenças. João Paulo conta sua experiência após ter tido formação católica e passar pelo espiritismo, e sua forma de exercitar atualmente a prática religiosa .

 

“Hoje eu tenho um envolvimento maior com doutrinas orientalistas, que são o budismo, o confucionismo, e o taoísmo; só que eu acabo não pertencendo a nenhuma instituição religiosa, e sim talvez a grupos de estudo relacionados a uma espiritualidade mais holística”.

 

Para Gabriel Muzzy, estudante de Ciências Sociais e que cresceu em família católica, mas hoje exercita a religiosidade sem uma crença definida, acreditar em Deus pode se tornar um aspecto mais individual do que coletivo: ”eu tenho minha religiosidade, acredito em Deus do meu jeito, e pra mim, eu não preciso de religião para intermediar a relação com minha religiosidade”.

 

O estudante diz ainda que tem como influência o conceito hindu de que Deus está presente em toda a parte e em todos os momentos. “ Eu acredito em uma energia; não é uma coisa pré determinada. É subjetiva, que eu acho que, se eu mentalizar nisso, as coisas acontecem de uma forma melhor pra mim ”.

 

Segundo João Paulo, através de grupos dos grupos de estudos que freqüenta e do conhecimento adquirido ao passar por diversos núcleos religiosos, foi possível concluir que “ não importa necessariamente qual é o livro (Bíblia, Torá ou Alcorão) e a forma como é usado. O que importa é o conteúdo dessa fonte e como você vai praticar aquilo. É incrível como, se alguém fizer uma pesquisa, vai ver que passagens de Jesus na Bíblia tem muito a ver com a vida de Buda por exemplo”.

 

Para o jornalista, a crença exerce um papel importante na vida das pessoas. “A crença é justamente imaginar que existe uma verdade, ou algo que é superior a esta vida literal que agente tem , com estes problemas superficiais, que, digamos, tornam o homem mais animal”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Respostas para “Avanço dos evangélicos

  1. Iluska Coutinho

    Bela matéria, com grande volume de informação. Acho que a igreja católica contudo foi uma ausência significativa.

  2. Sérgio Ricardo

    A citação de que o crescimento no número atual de evangélicos se deu pelos problemas econômicos da década anterior, corrobora com a tese de que a pobreza é a força motriz das religiões. Em face das dificuldades e falta de perspectiva, os individuos tendem a buscar a solução no invisível ou atribuir a culpa à vontade superior.

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