Tudo em família quando o assunto é negócio

Fernanda Sabino – 27/10/08

Negócios em família. O termo pode soar como indesejável para alguns e como aspiração para outros.  Preferências à parte, os números falam por si mesmos: duas em cada três empresas no mundo têm origem familiar. A questão é que o empreendimento guiado pelos que são “de casa” pode ter exatamente nesta característica as ferramentas para uma dádiva ou uma grande cilada. Quando separar a razão da emoção? Será possível não levar problemas da empresa para dentro de casa? Como delimitar o contato profissional do familiar?

 

Tarcísio Gonçalves está há mais de 20 anos no ramo dos negócios familiares. A história começou quando ele e as irmãs montaram um empreendimento para atender a festas em geral. O tempo passou, cada um dos irmãos precisou seguir seu caminho e foi aí que os filhos de Tarcísio resolveram dar continuidade ao negócio. Há cerca de 10 anos, o Palácio das Festas é gerenciado pelo seu filho Rafael Gonçalves, 29 anos. Aos finais de semana suas duas filhas, Fabiana e Fernanda, dão suporte na organização dos eventos e a esposa Maria Tereza cuida especialmente da ornamentação dos espaços físicos.

 

Vantagens e desvantagens se misturam quando o assunto é trabalhar com a família. “Eu poderia listar trinta vantagens e outras trinta desvantagens”, afirmou Tarcísio. Porém alguns pontos se destacam: “Todos remando para o mesmo fim. Essa é uma vantagem importante”. Quanto às desvantagens: “Elas surgem quando não se sabe administrar o encerramento do expediente. Não se deve levar problemas para dentro de casa, senão o trabalho consome 24 horas do nosso dia. Eu costumo falar em casa: ‘não quero conversar isso aqui’”. 

 

 

pai e filho juntos no negócio

Tarcísio e Rafael Gonçalves: pai e filho juntos no negócio

  

 

 

 

 
A parceria e a confiança entre parentes são importantes, mas sugestões e contribuições de quem vem de fora do círculo familiar podem engrandecer ainda mais um negócio. O Palácio das Festas contrata, temporariamente, um serviço de consultoria para atualizar os serviços e manter o empreendimento em diálogo com as mudanças do mercado. “É preciso ter humildade para aceitar o olhar que vem de fora”, comentou Tarcísio.

Rafael Gonçalves, gerente do negócio, já está completamente envolvido: “Nasci dentro disso”, exclamou quando perguntado se gostaria de trocar de ramo. Ele afirmou que se sente na responsabilidade de consolidar e perpetuar a empresa da família: “Quero ser referência no mercado”. Rafael é registrado na empresa e recebe salário fixo, enquanto as outras irmãs recebem por serviço prestado, ou seja, por cada evento em que trabalham.

E como será que fica a autoridade de pai para filho dentro de uma empresa? “É totalmente separado. Aqui dentro chamo ele de Tarcísio e não de pai”, disse Rafael. O choque entre o que é novo e o que é antigo é também sentido por ele. Entretanto, as duas tendências devem andar juntas: “Como filho quero trazer para a empresa o que está na moda. Meu pai traz a sua experiência. Se bater tudo isso no liquidificador dá certo”, brincou.

Apesar de toda essa bagagem que Tarcísio Gonçalves carrega, ele confessa que algo muito difícil de administrar é o choque entre uma geração mais velha e uma mais nova. Os filhos vêm cheios de entusiasmo e querem dar passos rápidos, os pais apostam em uma tomada de decisão mais lenta. Para ele, no fim das contas, um equilíbrio pode ser alcançado: “Quando os mais velhos ganham confiança na decisão dos mais novos e estes também passam a ouvir  a experiência dos mais velhos há um equilíbrio”, explicou.

Empresas são como “organismos vivos”            

 

Segundo o técnico micro-regional do Sebrae, Marcelo Rother, as empresas familiares geralmente são de micro ou pequeno porte, incluindo também as informais. “São estruturas muito frágeis e que necessitam de uma gestão a mais profissional e cuidadosa possível”, explica. Marcelo compara as empresas com organismos vivos, dependendo do estilo da gestão ela pode ser sufocada e levada à morte. Os interesses pessoais não devem se sobrepor às necessidades coorporativas.

Marcelo conheceu na Itália – onde as pequenas e médias empresas fazem sucesso – uma indústria familiar chamada Piacenza. Ela existe há mais de 250 anos. “Perguntei ao empresário que nos recebeu a receita de sucesso para manter uma empresa familiar por séculos. Ele me disse que havia um cuidado constante em separar os interesses familiares dos interesses da empresa, sem confundí-los. Isso preserva a empresa”, relatou.

A relação familiar no ambiente dos pequenos negócios está diretamente relacionada à sobrevivência da empresa: “Todas as vezes que o empreendedor age desrespeitando os limites do negócio, concedendo benefícios a familiares, incompatíveis com a capacidade da empresa, ele corre o risco de inviabilizá-la. Por outro lado, a relação familiar pode ser vista como uma forma de concessão de esforços que vão além da relação de trabalho exclusivamente. Por exemplo, a esposa ou o marido preservam uma relação de confiança mútua, que se for aplicada à empresa, poderá contribuir significativamente para o sucesso do empreendimento”.          

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