Entrevista com o investidor da bolsa Marcelo Reis – Lá vem a marola

Tiago Vieira 18/03/09

Quando você começou a investir em ações? Por qual motivação? É um investimento mais lucrativo que os convencionais, ainda que de maior risco?

Eu comecei a investir em ações em 2006, buscando uma forma mais lucrativa para aplicar dinheiro. É difícil falar se é mais lucrativo ou não, eu opero diretamente no mercado, portanto, ser lucrativo ou não depende das escolhas que eu faço. E certamente é a forma mais arriscada de investimento, você pode passar meses acumulando lucros e ver tudo se esvair em apenas uma semana.

Muitos juizforanos investem em ações?

Eu conheço pessoas que investem, mas não muitos. Até onde eu sei, o a maioria dos investidores em Juiz de Fora são aposentados aplicando o dinheiro que ganharam durante a vida.

Já investia antes de estourar a recessão norte-americana? Suspeitava pelas cotações dos papeis que “algo grande iria acontecer”?

Eu já investia sim. É muito difícil fazer esse tipo de previsão. A crise foi escondida até o momentos em que não foi mais possível conter os prejuízos, por isso os números despencaram muito rapidamente. Existe um movimento, quase cíclico de altas e baixas no mercado de valores mobiliários. É bem complexo conseguir enxergar em um número negativo o início de uma crise. A maioria das pessoas só se deu conta do que se tratava quando as perdas já estavam acumuladas. Eu dei sorte, vendi minhas ações logo no início do processo, então consegui diminuir as perdas. Mas ainda assim tive algum prejuízo.

E na atual conjuntura do mercado? Continua investindo?

Continuo investindo sim. Momentos de crise costumam a ser bons para se fazer dinheiro. Como consegui fugir da grande queda pude aproveitar os baixos preços que passaram a valer no mercado. Em momentos difíceis a volatilidade aumenta, assim podem crescer os lucros e os prejuízos.

O que teria a dizer sobre a declaração do presidente Lula de que “Lá (nos EUA), ela (a crise) é um tsunami; aqui, se ela chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar”?

O presidente Lula tenta fazer a parte dele. Boa parte de todo o movimento negativo que direciona o mercado tem sua origem no medo dos investidores. As pessoas têm medo de perder seu dinheiro e tiram do mercado. E quanto mais se tira pior fica e acaba criando um efeito de manada, despencando todas as cotações. O problema é que o presidente, muitas vezes, faz declarações que entram em choque direto com sua própria equipe econômica. O que por fim cria um cenário ainda maior de instabilidade.

Porém é fato que a crise chegou bem menor no Brasil que em vários países desenvolvidos e o próprio EUA. O desemprego, o desaquecimento da industria de do comércio está acontecendo em todo o mundo, mas o Brasil está sentindo menos efeitos que boa parte desses países.

De fato, a crise demorou um pouco para surtir por aqui reflexos. Mascarada por intervenções do governo que não chegam nem próximo ao pacote de resgate econômico dos Estados Unidos. Mas enfim chegou! Como analisa a atual conjuntura do mercado nacional e seus prospectos para o futuro?

Primeiramente eu não acho que as intervenções do governo tenham sido ruins. No início da crise a maioria das pessoas acreditavam que o Brasil permaneceria de mãos atadas esperando pra ver o que os norte-americanos fariam. Mas não foi o que aconteceu. O Governo injetou muita verba na economia brasileira, tomou diversas medidas para incentivar o consumo, para criar e manter empregos. E é o que o país deve fazer. Os EUA “devem” gastar todo o dinheiro de seus cofres se for necessário, pois essa crise foi criada por eles. Um único país que prejudicou o crescimento de todo o planeta. Os norte-americanos gastam pois precisam recuperar o movimento da economia global, eles precisam mostrar que estão dispostos a gastar, passar confiança para os investidores, já o Brasil precisa manter sua estrutura interna, mostrar para os investidores que tem meios para se proteger.

A população de uma forma geral está bem perdida sobre o que o governo esta fazendo. Tanto a imprensa quanto a oposição atacam as medidas do governo com intenções políticas e eleitorais. Um fato que, pra mim, exemplifica bem isso, é que ambos atacam sempre as declarações do presidente, muito mais que as medidas que o governo toma. Medidas que têm sido elogiadas por economistas de todo o país.

Quanto ao futuro, sou otimista. A crise está chegando agora à economia real. Com a recessão da industria os empregos começam a correr risco, o consumo diminui aumentando ainda mais o risco de desemprego. Porém eu acredito que o fundo do poço no mundo financeiro já passou. Esse já esta começando a se recuperar. E as medidas que os governos de todo o mundo estão tomando é justamente para proteger a economia real. Estão criando empregos, aumentando a produção das industrias, medidas que visam dar dinamismo e liquidez à economia. Ainda haverá alguma dificuldade, mas não acredito em colapso de nenhum setor.

E um conselho para quem anda assistindo muita televisão. Diversos comentaristas econômicos dos jornais entram em rede nacional para dizer que esse não é o momento para consumo. Eu acredito ser uma irresponsabilidade desses profissionais falarem algo que não compreendem. Com a diminuição do consumo vem a recessão da industria, com a recessão da industria vem o aumento do desemprego, logo do consumo e isso gera uma bola de neve que, de forma alguma, ajuda a economia a se restabelecer.

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