É possível ser artista em Juiz de Fora?

Kaliandra Casati 27/04/09

Artistas juizforanos das mais diversas áreas enfrentam dificuldades na produção e divulgação de seus projetos

Juiz de Fora sempre foi uma cidade rica em manifestações artísticas. Pedro Nava, Murilo Mendes, Fernando Gabeira, Ana Carolina, Rubem Fonseca, entre outros grandes nomes conhecidos nacional e internacionalmente, são frutos da cidade. E outros tantos artistas continuam a surgir ao longo dos anos. São bandas, grupos de teatro, artistas plásticos, cineastas, escritores tentando mostrar seu trabalho e conseguir um lugar ao sol.

Michel Lenev acredita que falta cooperação entre os artistas juizforanos
Michel Lenev acredita que falta cooperação entre os artistas juizforanos

Porém, a caminhada destes artistas não é das mais fáceis. Para o produtor musical Michel Leneve, a falta de cooperação entre a classe artística, a escassa aplicação de recursos no setor e a predominância crescente de espetáculos da chamada indústria cultural dificultam a vida de quem quer lidar com arte. “Não há nada pior do que o desdém gratuito. As pessoas nem procuram entender a sua idéia e já torcem o nariz. Quer seja o espectador, o crítico ou o patrocinador. Já não há como culpar nenhuma destas 3 esferas isoladamente” – lamenta.

Mercado

O artista plástico Pedro Guedes acredita que o problema não está com Juiz de Fora; ser artista é difícil na maioria das cidades brasileiras. “Normalmente, só em cidades com mais de um milhão de habitantes encontramos um bom mercado para as artes”. Para Pedro, uma das principais dificuldades encontradas é cativar o cliente. “Começar é muito difícil. Hoje eu já tenho um nome em Juiz de Fora, mas, mesmo assim, não sobrevivo da venda dos meus quadros. Me mantenho com os 100 alunos que tenho no meu ateliê”.

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Assim como Pedro Guedes, o escritor Eduardo Lara Resende acredita que conquistar o mercado é a grande dificuldade dos artistas na maioria das cidades brasileiras. “É difícil ser escritor em qualquer lugar onde não existam leitores para a literatura que se produz. Cativar o leitor e conquistar o mercado talvez sejam tarefas tão árduas quanto parir um livro”. O escritor não credita as dificuldades enfrentadas à falta de incentivo por parte dos órgãos públicos. “Não deveria ser essencial a intervenção do poder público para que a arte sobreviva. A sociedade é que deve valorizar e prestigiar seus artistas. Discursos recorrentes sobre investimentos públicos em atividades artísticas podem ser um sinal de que as coisas não vão bem. Incentivar a arte através da educação e da isenção de impostos, por exemplo, poderia dar resultados mais consistentes a médio e longo prazos”.

Gustavo Miranda em gravação com sua banda de Rock Japonês

Gustavo Miranda em gravação com sua banda de Rock Japonês

O estudante de administração Gustavo Miranda conta que já participou de duas bandas, uma de rock nacional e internacional e outra de rock japonês, mas ambas se desfizeram pelo mesmo motivo: falta de perspectiva profissional. “As duas bandas eram formadas só por universitários e, como sabemos que é muito difícil viver de música, acabamos dando prioridade a nossas vidas acadêmicas” – explica.

Incentivo

O diretor e ator de teatro Thiago Berzoini fundou a Cia. Teatral Caravela das Artes no meados de 2004 e, desde então, tenta participar de diversos projetos de incentivo à cultura. “Em 2005 entramos na Lei Murilo Mendes, com o intuito de montarmos ‘Demônios’, uma peça adaptada do romance homônimo de Dostoièvsky. O projeto foi avaliado e recebeu elogios, porém não obteve aprovação, pois os demais participantes eram iniciantes e o projeto, ousado. A experiência foi positiva, pelo aprendizado de elaborar o projeto; mas, ao mesmo tempo, um pouco frustrante, pois a Lei visa auxiliar os novos talentos e não deferiu o projeto porque a maioria dos envolvidos não tinha experiência. É paradoxal”.

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Thiago também participou, em 2008, da “Campanha de Popularização do Teatro e da Dança” promovida anualmente pela Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Juiz de Fora (APAC/JF) e diz não ter mais interesse em fazer parte do projeto. “São muitas as peças oferecidas ao público e a preços populares, isso é positivo. No caso da Caravela das Artes, já trabalhamos durante a temporada com preços populares. Temos percebido que alguns produtores se incomodam com isso e a APAC parece concordar com essa postura”. O diretor também aponta como problema a falta de seleção dos trabalhos apresentados na Campanha “Todo e qualquer grupo pode participar. Não sei até que ponto essa grande oferta é popularização, acho que a oferta deve conter qualidade. Juiz de Fora tem mais discurso do que prática cultural. As discrepâncias estão em muitas esferas, não se pode culpar só o produtor ou o artista. O público também é grande culpado, gosta de tudo mastigado, se tiver que digerir alguma coisa, já dispersa” – conclui.

 

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