Milk – Há de fato igualdade?

Tiago Vieira – 22/04/09

Bons latinos que somos, por alguma razão, talvez pela incidência direta de sol sobre nossas cabeças, desenvolvemos propensão a lidar com sexo. O alheio, principalmente. O do vizinho, preferencialmente. A opção de cada um, especificamente. No entanto, seja no Brasil ou em Amsterdã, é preciso estar muito seguro da própria sexualidade para exaltar as feições de outro homem, ainda mais o sendo de orientação dessemelhante. Uma irradiação puritana, diluída e gotejada no transcorrer das décadas, coletada em fracos reacionários guardados acima e a esquerda da Linha do Equador. Em um continente onde há porções tão ensolaradas quanto o nosso. A Califórnia pelo menos o é.

Harvey Milk – primeiro homossexual a ocupar cargo público expressivo nos EUA (Foto - Reprodução)

Harvey Milk – primeiro homossexual a ocupar cargo público expressivo nos EUA (Foto - Reprodução)

De um norte-americano, figura pública dada à expressão artística essencialmente machista, partiu tamanha audácia. Famigerado colecionador de belas modelos, em ocasião recente, o roqueiro Lenny Kravitz rasgou elogios à forma física do estilista Marc Jacobs. Também norte-americano, homossexual declarado e de romance atado com um publicitário brasileiro. Além de envaidecer Jacobs, que de fato metamorfoseou-se de “gordinho nerd” a “galã balzaquiano” após sucessivas desintoxicações, Kravitz subverteu o juízo público e fez a alegria dos sensacionalistas atocaiados.

Um congressista afro-descendente, forte candidato nas prévias presidências de seu partido, aguarda em uma cama de hospital pelo resultado do seu exame de HIV. Perguntado sobre comportamentos de risco, antes de receber resposta, o médico ironiza: “pelo seu estado de saúde, a chance de termos um presidente negro e gay é zero. Não é a toa que a Casa Branca é pintada de branco”. Se fosse verdade, picadinhos seriam feitos com o diploma do médico antes do primeiro ativista tomar as ruas.

Mas não é para tanto. A passagem foi proferida pelo ácido Doutor House, protagonista do seriado homônimo exibido na TV aberta pela Record. Contudo, é por demais simbólica. Mesmo que estes eventos não anulem possibilidades entre si, pelo que consta, Barack Obama é afro-descendente, heterossexual, casado e pai de duas filhas. Se Obama é presidente hoje, é devaneio termos amanhã um homossexual na Casa Branca? É lúdico crer que se estivesse vivo, Harvey Milk seria um provável inquilino? Para o diretor Gus Van Sant, não.

Sean Penn é Harvey Milk na cinebiografia do ativista assinada por Gus Van Sant (Foto - Reprodução)

Sean Penn é Harvey Milk na cinebiografia do ativista assinada por Gus Van Sant (Foto - Reprodução)

Contabilizando oito indicações na edição 2009 do Oscar, realizada em 22 de fevereiro último, a cinebiografia “Milk – A Voz da Igualdade” condecorou Sean Penn, protagonista, Dustin Lance Black, roteirista, esteve no páreo com o próprio Van Sant e figurou dentre os selecionados ao prêmio de Melhor Filme. Harvey Milk foi o primeiro homossexual a ocupar um cargo público de relevância nos Estados Unidos. Era uma espécie de subprefeito do distrito de Castro, região da cidade californiana de San Francisco. Como já é tradição no país, líder político que era, assim como Malcolm X, Milk foi assassinado por outro subprefeito em 1978. Foi-se, mas antes espalhou sementes ativistas em solo adequado. O único lugar parcialmente imune ao conservadorismo ianque, adubado com insumos das predecessoras gerações beat e hippie. A San Francisco dos anos 70 era propícia à exportação de frutos para o mundo.

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A Voz do Diretor

Em entrevistas coletivas recentes, Gus Van Sant, assim como Lance Black homossexual, mostrou-se entorpecido pelo Harvey Milk de Sean Penn e dissertou sobre um hipotético inquilinato na Casa Branca se o ativista estivesse vivo. Van Sant, realizador de “Gênio Indomável” (1997) e “Elephant” (2003), ainda em coletivas, lançou pontuais críticas à indústria cinematográfica. Gus acredita que só foi possível rodar “Milk” porque o núcleo principal do elenco era formado por heterossexuais. O diretor alega que não haveria identificação do público, basicamente hetero, se o longa-metragem fosse protagonizado por um ator gay. E cita Alan Cumming como exemplo de interprete indigesto à captação de patrocínio.

Gus Van Sant segue polemizando e credita a Ang Lee, diretor de “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), o sucesso de “Milk”. Para Gus, Brokeback, de temática próxima a seu filme, tornou-se modelo comercial a ser seguido: “A única forma de convencer os donos do dinheiro de que vale a pena investir em uma produção é provando que alguém vai pagar para assisti-la”. Muitos consideraram as declarações de Van Sant demasiadamente frias. Esperavam que por sua orientação e última realização palavras mais apaixonadas, com trejeitos de militância, lhe saltariam a boca. O antevisto potencializa-se pela preferência de Gus por assinaturas opinativas. Mesmo saído de um experimento semi-documental, culminando com martirização em prol de uma causa, o diretor manteve posições analíticas, dentro de uma escala que vai do funcionalismo ao tecnicismo.

Grávido de esperança há 30 anos passados, se vivo estivesse, igualmente Harvey Milk o seria. Abortando em nome de um bem maior, pois a concessão é mal necessário para sem número de fins. Abandonaria o corpo a corpo para galgar trincheiras em campo político minado. Porém, sem nunca perder a essência. Adaptação é o que faz o Reino Metazoa permanecer neste planeta. Simultaneamente as comemorações da vitória do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, a Califórnia, ensolarado estado em que Milk plantou sementes, votava a “Proposta 8” proibindo a união entre pessoas do mesmo sexo.


A Voz de Juiz de Fora

Marcos Trajano - Militância Local (Foto - Tiago Vieira)

Marcos Trajano - Militância Local (Foto - Tiago Vieira)

Marcos Trajano, em nome do Movimento Gay de Minas (MGM) e da Associação Brasileira de Gays (ABRAGAY), fala sobre o filme “Milk – A Voz da Igualdade”; a Proposta 8 caçada na Califórnia, que regulariza a união entre pessoas do mesmo sexo; e ainda sobre representação política homossexual em Juiz de Fora.
(clique nos links abaixo e ouça a entrevista)

Harvey Milk…

Proposta 8…

Juiz de Fora…


Links Relacionados

Milk – A voz da igualdade (site oficial): www.milkmovie.co.uk
Movimento Gay de Minas (MGM): www.mgm.org.br



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Uma resposta para “Milk – Há de fato igualdade?

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